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Resenha | Batman: A Queda do Morcego

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Os anos “nojenta”

A Queda do Morcego foi, indiscutivelmente, a saga do Batman que marcou os anos 90. Não que ela fosse um primor de arte e roteiro, mas foi tanto a porta de entrada de muitos leitores quanto a de saída para outros mais velhos.

A última década do século XX viu o surgimento de quadrinhos cada vez mais violentos. A figura do “anti-herói” passa a ser extremamente valorizada, e parece não haver lugar para escoteiros nos gibis. A arte começa a ser cada vez mais exagerada, com personagens musculosos ao extremo e anatomicamente desproporcionais, e os heróis bonzinhos dão lugar cada vez mais a machões parrudos, sujos e com músculos até a orelha. A linha entre o bem e o mal se torna cada vez mais tênue, a ponto de sumir por algumas vezes. A editora Image é fundada e dá uma banana para os roteiros (quem precisa disso?) em troca de uma arte avassaladora que chame a atenção de adolescentes.

Com isso, a DC Comics viu-se quase que obrigada a dar uma “chacoalhada” no seu universo fictício. Só na primeira metade dos anos 90, tivemos a morte do Super-Homem, a loucura do Lanterna Verde, a Mulher-Maravilha perdendo seu posto, o Flash correndo a uma velocidade terminal... E o Batman. Ah, o Batman...

O Cavaleiro das Trevas

O Batman já tinha passado por uma grande reformulação há pouco tempo, nas mãos de Frank Miller. O Cavaleiro das Trevas e Ano Um foram duas minisséries que deixaram pra trás o clima leve de décadas de história do personagem para deixá-lo mais sombrio. O Homem-Morcego já não se parecia nem um pouco com os super-heróis da Era de Prata, e passou a adotar uma postura mais, digamos, obsessiva. Reflexos dessa fase se encontram até hoje nos meios pelos quais ele passa, tendo seu ápice na trilogia cinematográfica de Christopher Nolan. Mas ainda era pouco. Batman ainda era um personagem da DC, e precisava (na cabeça dos editores) de algo mais próximo do que estava acontecendo na Image. E foi aí que tiveram a ideia da reformulação total do nosso herói.

Os quadrinhos da Abril

Nessa época, tanto a Marvel quanto a DC, e mais tarde a Image, eram publicadas em formatinho (o mesmo formato dos gibis da Turma da Mônica) no Brasil pela Editora Abril. Essa primeira fase da Queda saiu na revista Liga da Justiça e Batman, que, após oito edições, ganhou a revista-irmã Batman, e suas histórias eram interconectadas e intercaladas. À época surgiram várias críticas quanto a esse formato. A primeira, e talvez mais pertinente, foi sobre a publicação abranger personagens tão distintos. Não parecia ser uma boa ideia colocar as histórias sombrias de um Batman exaurido pelo fardo de combater o crime na mesma revista em que uma Liga da Justiça galhofeira era publicada. Embora Dan Jurgens quisesse dar um tom mais sério à Liga do que seus antecessores (que tinham transformado o título em uma espécie de sitcom com super-heróis), a Liga ainda tinha Besouro Azul e Gladiador Dourado em suas fileiras. Podemos somar a isso o fato da cronologia estar totalmente defasada. Nos primeiros números, vemos o Batman usando uma braçadeira de luto pela morte do Super-Homem, mas nas histórias da Liga isso ainda não tinha acontecido, e a tal braçadeira só foi entregue dez edições depois!

Fora isso, para aproveitar ao máximo as 84 páginas disponíveis, eram feitos cortes terríveis nas histórias. Para fazer duas histórias se tornarem uma só, cortavam a última página da primeira história e a primeira da segunda, para parecer uma história contínua. O resultado era desastroso, pois isso podia ser notado principalmente na mudança de artista e de estilo. Além disso, trechos chaves da trama iam, por vezes, para o ralo. Um exemplo, como forma de curiosidade, é o modo como Bane invade a Mansão Wayne, que foi cortada e só apresentada anos mais tarde.

Não só as páginas eram cortadas como os diálogos também. Ainda sem recursos tecnológicos como os de hoje, as letras eram escritas à mão nos balões. O formato reduzido em comparação ao original obrigava os textos a serem mais curtos, e os tradutores reduziam bastante as falas. Comparar uma página original com sua versão nacional é até covardia.

Isso sem contar que as capas das edições nacionais muitas vezes não refletiam a história da revista. E quando acertavam na capa, tínhamos outro problema: Kelley Jones. O artista que desenhava as capas seguia à risca o estilo Image, inventando músculos onde não existem e descaracterizando os personagens. Sua arte dividia opiniões. Uns gostavam e outros odiavam, principalmente porque seu estilo gótico contrastava com a arte mais leve de Jim Aparo no miolo da revista. Jones continuou desenhando as capas até o fim da saga e, mais tarde, passou a desenhar as histórias do Batman. E o formato reduzido da revista acabava deformando a arte.

A queda

A Queda do Morcego começou com uma premissa básica: Bruce Wayne, após anos lutando contra o crime em Gotham, estava num estado de cansaço físico e mental avançado. Isso levaria um novo vilão a se aproveitar de sua situação precária de saúde para tirá-lo de circulação. Assim, fomos apresentados a Bane, um vilão nascido e criado na prisão, que treinou seu corpo e sua mente para se tornar o senhor do crime de Gotham City. Bane, com seu alto intelecto, percebeu o que se passava com Batman e se aproveitou disso. Liderou uma fuga em massa do Asilo Arkham, para que o já combalido Cavaleiro das Trevas enfrentasse todos os seus piores inimigos, um a um, até não se aguentar em pé. E foi o que aconteceu. Batman, após uma série de confrontos envolvendo o Charada, Espantalho, Vaga-Lume, Hera Venenosa, Sr. Zsasz, Chapeleiro Louco e o Coringa, finalmente encontra-se com Bane. O mentor do plano havia descoberto a identidade de Batman e já o esperava na Mansão Wayne, para o pegar quando não tivesse mais força. E foi o que fez: após dar uma surra homérica no Morcego, Bane quebra sua coluna em uma das cenas mais icônicas dos quadrinhos no período. Batman foi, finalmente, derrotado.

Quem manda na noite

Em seguida, Bane leva o desacordado Batman para o alto de um edifício em Gotham e o joga de lá de cima, fazendo com que seu corpo moribundo caia na calçada. Batman só não morre porque tem a queda amortecida pelos toldos do prédio (e porque é o personagem principal). Convenientemente, Alfred Pennyworth já o estava esperando com uma ambulância de resgate e o leva pra caverna. O mordomo, que também é treinado em medicina (e corte e costura!) já havia preparado uma UTI em seu covil, e faz o que pode para salvar a vida de seu patrão/amigo/filho adotivo. Enquanto isso, Bane se estabelece como o novo chefão do crime de Gotham.

Essa fase da saga traz algumas bizarrices de roteiro que, vendo em retrospecto, não fazem sentido algum. Em primeiro lugar, está a desculpa esfarrapada que a bat-família arranja para o sumiço de Bruce Wayne: ele se acidentou com o Porshe. Por que diabos não foi levado para um hospital, então? Enquanto está incapacitado, Bruce escolhe alguém pra substituí-lo. Jean-Paul Valley, o Azrael, assume então o manto do morcego. Outra escorregada de roteiro, pois não havia nenhum motivo plausível para não ser Dick Grayson o novo Batman. Afinal, não foi pra isso que ele foi treinado desde criança? Quem é Azrael, afinal de contas?

Jean-Paul Valley foi introduzido ao público na minissérie A Espada de Azrael, e além de ser um personagem menor, estava há pouco tempo na bat-família. Foi uma decisão bastante estúpida entregar o manto a ele, afinal de contas. Somando o fato de que ele era uma espécie de fanático religioso, com supostas visões de um suposto santo implantadas em sua mente, não tinha como dar certo. E o novo Batman começou uma jornada rumo à loucura, tratando os criminosos de forma ultraviolenta, fazendo upgrades no bat-traje que começou com uma manopla com garras e culminou em uma armadura de batalha. Perseguindo implacavelmente os bandidos, Paul chega até Bane e lhe dá uma surra que o deixa catatônico. É o início de uma nova era para um novo Homem-Morcego.

A cruzada

As visões de São Dumas implantadas em sua mente pelo “Sistema” faz com que Paul fique completamente obcecado e inicie uma espécie de cruzada contra o crime. Nessa fase da saga, o novo Batman não só expulsa Robin da Bat-Caverna como sela todas as suas entradas e saídas conhecidas pelo Menino-Prodígio. Sua armadura começa a ganhar mais acessórios, como um capacete no lugar da máscara, um lançador automático de batarangues – que agora eram menores e mais letais – e garras mais afiadas. Nessas histórias, o Batman se tornaria uma paródia do que o público de outras editoras esperavam de um herói, um ser psicótico e com sede de vingança ao invés de justiça. A loucura foi crescendo de forma assustadora, a ponto de Paul deixar um vilão morrer, sem remorso algum. Esse novo Batman era, para todos os efeitos, um assassino a sangue frio.

A Busca

Enquanto isso, Bruce Wayne estava totalmente sem saber o que ocorria. Numa cadeira de rodas, o antigo Batman procurava alguma maneira de voltar a andar, e encontrou em sua terapeuta Shondra Kinsolving um tratamento alternativo e uma nova paixão. Em uma trama rocambolesca de novela mexicana, Shondra é sequestrada pelo seu irmão malvado (!), que descobre que ela tem poderes curativos (!!), e Bruce faz um juramento, com os punhos cerrados para o céu (!!!), de que não descansaria até encontrá-la. Shondra, que estava sendo drogada pelo seu irmão para ser manipulada, é enfim encontrada pela força-tarefa de Bruce e, no meio de um duelo telecinético com o vilão, dispara uma onda de energia que cura a coluna quebrada de Wayne, fazendo-o voltar a andar (!!!! Ah, eu desisto de colocar exclamações aqui!). Infelizmente, o trauma foi muito grande, e a mente da Doutora Shondra Kinsolving se torna a de uma criança de oito anos. Bruce, com o coração partido, financia o seu tratamento em uma instituição mental na Inglaterra, e não a vemos novamente.

O Retorno do Morcego

Ao voltar pra Gotham City, Bruce Wayne finalmente é atualizado sobre a situação do seu sucessor, e decide que é hora de tomar seu lugar. Como esteve muito tempo paralítico, precisa antes passar por um treinamento intensivo com Lady Shiva, que o obrigou a matar um homem como teste final. Bruce engana sua mestra fingindo matar e conclui seu treinamento. Vestindo novamente o manto do morcego original, o Batman verdadeiro enfrenta o novo Batman, numa luta que se estende por algumas edições. Bruce é mais experiente e melhor preparado, mas, a essa altura, Jean-Paul usava uma armadura extrema que incluía, entre outras coisas, um lança chamas! Após uma épica batalha na caverna (que Bruce consegue invadir pelo mesmo buraco que caiu quando era criança), o Batman original derrota o seu substituto não pela força, mas pela inteligência. Atraindo-o por túneis cada vez mais estreitos, Azrael se vê forçado a largar a armadura aos poucos para poder se locomover, até que sai para a luz, que momentaneamente o cega e o traz à razão. Paul percebe que não é o Batman, e entrega o posto a seu verdadeiro dono.

Esse é o fim?

A história final, embora intitulada Clímax, é paradoxalmente decepcionante. Claro que a ideia foi demonstrar a superioridade moral de Bruce Wayne sobre Jean-Paul Valley, mas mesmo assim não funcionou. A arte de Barry Kitson não ajudou muito, deixando a impressão de que o desenhista é um “escravo de close-ups”, pois usa quadros e mais quadros apenas com o rosto dos personagens. Uma saga como essa, que levou dois anos para ser concluída, merecia um final melhor. As histórias que vieram depois foram bastante insossas, com Dick Grayson assumindo o lugar de Bruce por um tempo para que esse pudesse se recuperar melhor – o que, diga-se de passagem, deveria ter acontecido desde o começo.

Entre o começo e o fim da saga, tivemos momentos bons, ótimos e meias-bocas. Uma das melhores coisas que aconteceram a partir dessa saga foi a revista solo do Robin, que acabou tendo 183 edições e só foi cancelada em 2009. Além disso, excelentes artistas como Graham Nolam, Jim Aparo e Tom Grummet - além de outros menos ortodoxos, como Norm Breyfogle - estiveram sempre presentes durante esses dois anos. Os roteiros nem sempre eram bons, mas davam pra entreter e na maioria das vezes cumpriam seu papel.

A Queda do Morcego é bastante datada, e se lida novamente nos dias de hoje pode se tornar até um pouco (se não bastante) intragável. Mas foi algo que se destacou durante um período de escassez de ideias e criatividade editorial. Certamente, quem a leu em sua própria época (principalmente quem começou no mundo dos quadrinhos com ela) guarda memórias afetivas que podem trair os mais incautos.

O que fica para a posteridade é uma espécie de “lição de moral”, mais ou menos como a ideia principal da graphic novel O Reino do Amanhã: o mundo precisa de heróis de verdade, não de lunáticos fascistas ultraviolentos que fazem justiça com as próprias mãos. Só não dá pra dizer ao certo se os fãs de Jean-Paul Valley entenderam essa metáfora ou procuraram o próximo herói sanguinário depois dessa saga.

Dan Cruz

Professor de História, marido, pai e Mestre dos Calabouços nas horas vagas. Viciado em quadrinhos e RPG, acredita que o Superman existe e sonha em ser um Lanterna Verde, pra combinar com sua camisa do Palmeiras. Gosta de sorvete de pistache, mas sempre esquece e acaba comprando de chocolate.
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