Resenha | Blues

Uma das influências para os quadrinhos alternativos que Robert Crumb sempre fez eram os músicos que ele tanto adorava, e em Blues ele pôde prestar uma pequena reverência a esses artistas. Robert Johnson, Charles Patton, Jelly Roll Morton, Jimi Hendrix e tantos outros que estão presentes no álbum Blues, uma grande homenagem de Crumb a muitos de seus heróis.

A primeira história do encadernado da Conrad mostra uma retrospectiva sobre Patton, brincando inclusive dom o sobrenome homônimo do famoso general americano da Segunda Guerra Mundial, usando a coincidência como pontapé inicial da análise da carreira do músico pouco conhecido. A história vai desde quando ele era muito moço, escravizado em campos do algodão, onde tocava viola de maneira única, até às caminhadas dele já alforriado, à procura de novos ritmos como o ragtime com a The Chatmon Family. O roteiro também comenta sua inspiração e a proximidade de Henry Sloan, motivada pelo ritmo que o músico fazia, e claro, pela vida amorosa devassa que levava, interrompida por lampejos de conversão ao protestantismo evangélico, sendo assim um símbolo dos arquétipos envolvendo o blues, já que grande parte do pano de fundo das lendas da música passam também pelo movimento gospel.

No prefácio de Rosane Pavan, se destaca que Crumb é o historiador confiável da América, uma vez que suas histórias, apesar da aura fantástica, jamais se livra do senso crítico e ácido de um homem que analisa todo o movimento artístico com um olhar próprio. A análise dessa e de suas outras obras só tem chance de ser minimamente acertada se levar em conta esse conceito, já que a alma e modo do desenhista de olhar o cenário tanto sobre o mapa de pobreza do país, quanto a forma de se fazer arte.

O escritor usa seus personagens para diferenciar as sensações, como quando se aprecia músicas falando sobre os hits que não deixam a lembrança do ouvinte em paz, como também aqueles que mexem com o imaginário, fazendo-o fantasiar por muitos momentos com as palavras e acordes harmônicos ali estabelecidos. Blues é pródigo nisso, não só como ritmo, mas também como parte dessa compilação que busca traçar um cenário sobre o movimento como um todo, sendo fácil de compreender mesmo para um leigo.

Há muitas historias diferentes no encadernado, algumas bem indiferentes e não tão dignas de notas, mas até as mais simples tem algo a acrescentar dentro do mapa que Crumb procura traçar, e por mais que essa não seja a revista mais inspirada do autor, certamente é uma das que ele mais derrama sua alma e sua devoção, e apreciar o que o autor considera seminal é obviamente proveitoso.

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