Quadrinhos

Resenha | Bolland Strips!

Compartilhar

Brian Bolland é um artista britânico muito conhecido pelos leitores de quadrinhos norte-americanos devido à sua incrível participação na graphic novel A Piada Mortal, de Alan Moore para a DC Comics. Nela, Bolland captura o texto pesado e sombrio de Moore para uma história do Batman com o Coringa em traços detalhados e ricos em expressões faciais, além dos excelentes contrastes de luz e sombra. Talvez essa riqueza de detalhes seja a marca característica de Bolland, que começou sua carreira profissional anos antes de ir para a DC, trabalhando em publicações inglesas como 2000 A.D., principalmente nas histórias do Juiz Dredd. Por seu traço exímio, Bolland fez carreira nos Estados Unidos desenhando principalmente capas, visto que sua arte leva um tempo muito maior para ser produzida do que o habitual para revistas mensais. Ainda assim, grandes obras como Camelot 3000 constam no seu currículo.

Bolland Strips é uma coletânea publicada pela Editora Nemo em 96 páginas em preto e branco, com miolo em couché e capa dura, trazendo material autoral e muito longe das histórias de super-heróis. O álbum conta com a íntegra de sua série A Atriz e o Bispo e das tirinhas autorreferenciais do Sr. Mamoulian. É interessante notar a diferença de estilo entre as duas obras, onde A Atriz e o Bispo contém o traço característico de Bolland enquanto Sr. Mamoulian é mais experimental e despojado, às vezes tosco.

A Atriz e o Bispo conta a história desse improvável casal e é praticamente centrada na quebra de expectativas do leitor. A Atriz nos é apresentada graficamente com características de dançarina burlesca, com seu corpo altamente voluptuoso – em várias cenas de nudez – e figurino extravagante, como se estivesse sempre em cena. Enquanto isso, o Bispo jamais tira suas vestes sacerdotais e carrega seu báculo, casula e mitra mesmo ao fazer suas necessidades fisiológicas ou, simplesmente, dormir. Representado como um velho gordo e abatido, temos na história do Bispo a tal da quebra de expectativa que permeia o texto: nada é exatamente o que parece, e o religioso tem um passado com máculas das quais ele não consegue se libertar, e que molda também o seu caráter, sua mais que aparente falta de fé e a hipocrisia de quem tem tudo aquilo que deseja bem em sua cama, mas ainda não se esquiva de um rabo de saia. O personagem é, sobretudo, uma caricatura de um conservadorismo religioso tacanho que, mesmo longe de suas afirmadas convicções, não consegue se desapegar das aparências de fachada. Uma crítica aos costumes e morais religiosas que vemos se repetir na edição mais adiante.

A personagem da Atriz traz também essa quebra de estereótipo que o próprio autor definiu. Se sua representação desenhada é de uma mulher com todas as características de uma meretriz sem talento e aproveitadora de um velho rico, sua personalidade está um tanto longe disso. A Atriz se mostra extremamente habilidosa em vários aspectos, seja fazendo malabarismos com facas ou simplesmente preparando o jantar, mas é válido notar o quão culta ela é. Sempre lendo um livro ou aprendendo uma nova língua, a personagem não se resume a profundidade de um pires que se faz entender no início do conto. A relação entre os dois – apesar de uma escapada com alguém nas sombras que com certeza é o Alan Moore! –  é feita de afeto, carinho e cuidado. Talvez o leitor se frustre com o final que, novamente, quebra uma expectativa criada durante toda a história, mas o desfecho segue a linha do autor de se afastar da fantasia e deixar o leitor tirar suas próprias conclusões.

Já a segunda parte do álbum conta com as tirinhas do Sr. Mamoulian, e é onde Bolland se sente mais livre para dizer aquilo que pensa, ou simplesmente não dizer nada! No texto introdutório ele afirma que se forçou a fazer suas páginas como se estivesse escrevendo uma carta, e que do jeito que saísse, ficaria. Assim, ele afirma ter vários erros, tanto de desenho quanto de escrita (que a tradução talvez não tenha repassado para o leitor), mas que seria algo fluido e sincero. Não se trata de uma grande ensaio sobre a vida, mas algumas reflexões do autor ficam evidentes. Ele continua criticando o conservadorismo tal qual na primeira parte do livro, mas aqui ele também tece ácidas críticas ao pós-modernismo e a posições progressistas. Se em A Atriz e o Bispo ele quebra a expectativa ao representar a figura feminina, aqui ele faz exatamente o oposto: sua personagem Cara de Merda é um completo estereótipo negativo de feminista masculinizada com posições incoerentes. Aliás, todas as personagens mulheres da série são estereótipos, o que nos faz pensar que o autor tenha algum tipo de problema em se relacionar com o sexo oposto (na verdade, em mais de uma ocasião, o próprio alter ego de Bolland chega a afirmar isso).

Fecha a edição algumas hqs de uma página, com uma representando um trecho cruel da Bíblia apresentado no Livros dos Reis, e umas ilustrações que vale a pena parar para ver os detalhes (principalmente os escondidos na estola do Bispo), que mais uma vez aponta para uma crítica à religião. Bolland Strips! não é um quadrinho convencional e muito de seu conteúdo é aberto a interpretações. O trabalho de tradução está realmente muito bom, principalmente na primeira parte onde a adaptação dos versos está impecável. É nítido o esforço da Editora Nemo em trazer um material muito bem revisado e com o esmero merecido para a obra de um artista tão aclamado entre leitores de quadrinhos.

Compre: Bolland Strips!.

Dan Cruz

Professor de História, marido, pai e Mestre dos Calabouços nas horas vagas. Viciado em quadrinhos e RPG, acredita que o Superman existe e sonha em ser um Lanterna Verde, pra combinar com sua camisa do Palmeiras. Gosta de sorvete de pistache, mas sempre esquece e acaba comprando de chocolate.
Veja mais posts do Dan
Compartilhar