Resenha | Bone: Fora de Boneville

Publicado no Brasil pela editora HQM, Bone: Fora de Boneville é um divertido conto derivado de uma narrativa gráfica premiada e reconhecida no mundo inteiro, desde 1991, envolvendo os carismáticos carequinhas da lendária vila de Boneville – uma espécie de Hobbits, mas com inspirações bem mais humanas que os anões beberrões, criados por J.R.R. Tolkien. Junto de Snoopy, Mutts e de outras criações clássicas dos quadrinhos internacionais, os pequeninos (que carregam todos o mesmo sobrenome, Bone) são muito atrapalhados e curiosos por natureza, e não dispensam uma boa aventura quando farejam uma.

O primeiro volume da série é uma história que tem graça própria; não dá pra não gostar. Quando lido por uma criança, suas mensagens podem até passar despercebidas, o que não é de se surpreender, dado o alto nível das loucuras e do corre-corre que existe entre dragões do bem, monstros sombrios e uma velhinha casca grossa, em uma cabana no meio da floresta. Para os adultos que conseguem ver além da mera diversão, deliciosa e sugestiva como essa em questão, o famoso quadrinista norte-americano Jeff Smith reserva algo de especial: a análise metafórica das zonas de conforto, e a fuga de alguém de lá, através da ótica de quadrinhos feitos para todas as idades.

Aqui, numa situação única que leitor nenhum tinha visto antes, como nas tirinhas de jornal, Fone, Phoeney e Smiley Bone são os três expulsos do seu condado, depois que Phoeney tenta ser prefeito de lá, e tudo dá errado com a sua candidatura. Ajudando o primo a fugir, os três Bones vagam pelo deserto até encontrarem com mil gafanhotos e, em meio a confusão, se separam. Perdidos em uma selva cheia de perigos, como ratazanas gigantes com olhos vermelhos e que podem devorar qualquer um, eles têm de sobreviver num novo cenário repleto de desafios, contando com poucos aliados e a nossa habilidade de se adaptar sempre a um novo ambiente. Com novas circunstâncias que nos aguardam, e de braços abertos.

Fone, o mais esperto e simpático do trio, tem a sua jornada escolhida para nos guiar pelo mundo além da confortável Boneville, um horizonte não-desbravado no qual essas criaturinhas jamais ousaram se aventurar, acostumadas com o bem-estar e o acolhimento de sua própria linhagem. Jogados no imprevisível e no desafiador, os primos Bone percebem que nada é fácil, mas com esforço e positividade, tudo pode ficar melhor – e mais divertido. Smith se mostra hábil na condução de uma história que, ao final, deixa muitas perguntas a serem respondidas, mas que entretém e deixa um gosto inebriante de quero mais, principalmente devido aos seus personagens, um mais interessante que o outro.

Temos então uma receita perfeita entre simplicidade, e sagacidade. O caso é que Smith, ciente de que o que tem em mãos é amplamente aclamado, popular, e já foi traduzido para mais de quinze idiomas, faz questão de colocar seus anõezinhos brancos e malandros em situações que extraem o melhor e o pior de suas personalidades, rendendo até uma jocosa metalinguagem em determinada cena. Quando Fone entrega para uma mulher um gibi que adora ler, ele descobre que ela não conhece histórias em quadrinhos. Nisso, ele fica espantado, e revela o seu amor pela mídia que faz parte, enquanto Smith aproveita e a homenageia, através das palavras de sua criação. São momentos assim que fazem tudo valer a pena, de verdade.

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