Resenha | Capitão América – Tempo Esgotado

Capitão América - Tempo Esgotado

Na quinta série de volumes de Capitão América, que estreou em Janeiro de 2005, Ed Brubaker faria os roteiros do que seria conhecido como uma das melhores fases do herói nacionalista americano (mas não propagandista do governo) e que seria responsável por uma das melhores reinvenções do canônico personagem, sem precisar rebootar para ser competente em seu papel de modernizar um herói. O Capitão América é bastante ligado a uma época, sofrendo por vezes da alcunha de ser datado, fato que perdura desde a sua estreia, pelos idos dos anos 40.

A história começa introduzindo o maior vilão da galeria do capitão junto a um russo misterioso, num ar de conspiração condizente com a paranoia da Guerra Fria, ainda que esta tenha sido há muito “superada”. O traço de Steve Epting garante ao Caveira Vermelha um aspecto deveras assustador, que muitas vezes é esquecido por parte dos desenhistas da revista, aqui ele é um vilão cruel e sanguinário, seu semblante já transparece isso, ao contrário de qualquer aliteração do passado recente. Sua megalomania e enorme ego são mostrados com maestria, através de seu plano que envolve não só a dominação mas também a contumaz vingança junto ao seu rival através das décadas, visando uma humilhação pessoal, como também da sua figura.

Steve Rogers se encontra num inferno astral, graças à morte do Gavião Arqueiro, que além de reabrir velhas feridas, inclusive sobre a morte de seu antigo parceiro Bucky, ainda ajudaram a firmar a ideia da dissolução dos Vingadores. Para piorar a sua situação, qualquer pessoa da Shield que venha entrevistá-lo ou intervir em seu trabalho o enxerga como uma lenda viva, exceção feita a Peggy Carter, uma agente já familiarizada com seu modus operandi. Uma boa alternativa da trama é mostrar a ação trôpega do Capitão através da bela sequência de ação pensada e executada por Epting, onde o experiente super soldado é mostrado como um homem precipitado e descauteloso.

O nome original do arco é Out Of Time. A história varia bastante entre os registros temporais. Rogers ainda se martiriza pela morte de Bucky, ainda na Segunda Guerra Mundial. As cenas retratando este período, coloridas em preto e branco, resgatam o clima aventuresco de suas histórias sem deixar toda a dramaticidade intencionada – e nem sempre conseguida – dos primeiros arcos de Joe Simon e Jack Kirby, criadores do personagem. No entanto, o que se destaca na história é o clima de conspiração e de thriller de espionagem internacional.

Um ponto interessante do roteiro de Brubaker é mostrar o verdadeiro papel de Bucky, que não seria só rivalizar com a juventude hitlerista e ser um sidekick do herói banderoso, seu papel era ser o “braço sujo” do Capitão, o lado sombrio dele, fazia o trabalho escuso que o símbolo máximo dos EUA não poderia fazer. Aliado a isto, há um justo resgate aos heróis primitivos da Marvel, à época Timely Comics, mostrando o Capitão América junto ao Namor, o princípe submarino e o Tocha Humana Original e Centelha, o seu ajudante.

O clima próximo ao desfecho do arco é pesado, ao mostrar Steve Rogers voltando ao castelo onde o seu parceiro teria sido torturado, além de reviver o episódio da morte do ajudante. Aos poucos, Rogers percebe que o assassino por trás das mortes de alguns de seus antagonistas é um personagem marcante de seu passado, movido entre outras coisas pelo desejo de vingança do antigo herói mirim pela proteção falha do sentinela da liberdade.

Antes da saga Soldado Invernal, há uma história de Brubaker desenhada por John Paul Leon, intitulada A Solitária Morte de Jack Monroe, onde se toca um pouco na origem do Renegado, um antigo colaborador do herói que empunha a bandeira dos EUA. Ao saber de seu estado de saúde precário, Jack Monroe ao invés de se lamuriar, prefere relembrar os bons momentos de sua vida, sendo o Bucky do Capitão América dos anos 1950, e trabalhando até ao lado do Capitão América original, sempre enxergando o manto azul com muita honraria e respeito e reverência sempre. Após rever tudo isto, ele chega a conclusão de que pouco fez e de que foi um zero a esquerda enquanto vigilante. Tal conclusão faz ele mover-se de modo diferente, caçando traficantes nos últimos momentos de sua vida e até pensando em reatar sua amizade com Rogers, para demonstrar apoio a ele pelo fim dos Vingadores. Pouco antes de perecer, ele tem devaneios a respeito do legado do manto de Bucky, e curiosamente tem uma sensação premonitória, de como seria o fim de sua vida, fazendo da história uma boa trama paralela à saga anterior.