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Resenha | Carnívora

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Há algo de muito errado acontecendo no Complexo da Caveira. Estranhos relatos tem assombrado o morro carioca, e de alguma maneira essas histórias se relacionam com o sequestro da jovem Adriana Lambert. Em busca de respostas sobre sua noiva desaparecida, o esquentado policial civil Carlos Ferraz se envolve em uma série de problemas, ao passo em que a delegada adjunta Jéssica Melo, novata no departamento, se propõe a buscar a solução para o caso ao seu modo, sem saber que está se enfiando em uma ocorrência de cunho sobrenatural.

De autoria de Péricles Júnior, Carnívora se situa entre a narrativa policial e o terror, se construindo de forma metarreferencial e de maneira um tanto quanto descoordenada em seus atos. O enredo da HQ é relativamente bem elaborado, mas não acompanha o alto nível da arte, penando com diálogos engessados e certa confusão no enfoque narrativo. A certa altura, não é possível dizer quem protagoniza a história, tampouco que se trata de uma trama contada a partir de dois pontos de vista. A sucessão dos acontecimentos apresenta um encadeamento de cenas confuso e caótico, transitando pela narrativa sem muito apego ao desenvolvimento real dos personagens.

O aspecto policial é bem fundamentado, mesmo com a questão supracitada dos diálogos antinaturais, estabelecendo uma dinâmica de equipe padronizada e relativamente harmônica. Quando se embrenha no terror é que a trama escorrega, visto que o gore existente nas cenas em que as criaturas devoram pedaços das pessoas acaba sendo prejudicado pela utilização da arte em preto e branco. Além da dimensão visual, a explicação para o surgimento da ameaça sobrenatural incorre em alguns estereótipos religiosos e titubeia ao pontuar a origem do fenômeno, a existência ou não de magia e da motivação envolvida.

As soluções do autor para encerrar a obra são corajosas e acertadas, visto que a história encontra maior fluidez quando centrada em Jéssica, e não em Carlos. Adriana, contudo, é pouco notada, sem que a personagem fosse minimamente trabalhada ao longo da história, e sua presença na capa acaba funcionando mais para fins estéticos do que para qualquer outra coisa. A história é envolvente e bem contada, ainda que cause certo incômodo nas transições de cenas em alguns momentos. A arte de Péricles Júnior é excepcional para ambientar de forma competente a narrativa, encontrando grande força em sua expressividade, e o trabalho possibilita o vislumbre de mudanças promissoras para os futuros trabalhos do autor.

O quadrinho, publicado pela Avec Editora, conta com capa cartão e papel de excelente gramatura, potencializando o nanquim do quadrinista. A HQ apresenta alguns problemas em relação à revisão textual, mas nada que prejudique a experiência de leitura em suas 120 páginas.

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Lucas Fazola Miguel

Lucas Fazola Miguel é professor de português e pesquisador de Histórias em Quadrinhos pela Universidade Federal de Juiz de Fora. www.instagram.com/fazolahqs | www.twitter.com/lucasfazola
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