Resenha | Constantine: Hellblazer – Fantasmas do Passado

hellblazer-fantasmas-do-passadoParece que finalmente a DC Comics quer dar um rumo para o icônico personagem John Constantine fora da linha Vertigo. Quando a editora o reinseriu em seu universo de super-heróis – tirando-o do selo adulto que foi sua casa por 300 edições – pouco ou quase nada lembrava o mago trambiqueiro criado por Alan Moore. No reboot da casa conhecido como Novos 52, John era basicamente um super-herói usando magia genérica como se fosse um haduken ou kamehameha, em forma de energia bruta. A sutileza das artes místicas, rituais, pactos com entidades demoníacas haviam ficado para trás, e o título Constantine teve pouco mais que vinte edições. Com a nova linha da editora, DC You (traduzida no Brasil com o quase sertanejo universitário título de “DC & Você”), John volta às suas origens de “lobo solitário”, e já nas primeiras páginas deixa claro que abandonou de vez a convivência com super-heróis.

Essa nova iniciativa da DC tenta retomar o clima das histórias clássicas do Mago, porém com uma roupagem mais moderna e atualizada para o século 21. Saem de cena todos os elementos datados e entram novas referências. Esse John Constantine, embora mais jovem e totalmente reformulado, finalmente volta a se parecer com o que ele era nos anos 90. Seu passado em Newcastle ou a temporada em Ravenscar não são sequer mencionados e provavelmente não aconteceram, mas temos novos elementos em sua vida, novos personagens, uma nova história a descobrir. Mas a personalidade sacana está de volta. Esse John não é nem de longe o mesmo que, há pouco tempo, liderava a Liga da Justiça Dark.

O visual baseado no cantor Sting foi descartado. Constantine agora se parece mais com Neil Patrick Harris, astro de How I Met Your Mother. Volta, inclusive, sua bissexualidade – parte integrante de sua personalidade que havia sido descartada nos últimos anos. Seus hábitos autodestrutivos, como fumar e beber até cair, estão novamente muito bem representados, e parte da trama ocorre justamente durante um porre do personagem.

Constantine é assombrado por vários fantasmas de pessoas que, de uma forma ou de outra, morreram relacionadas a seus erros. Quando esses fantasmas começam a sumir, algo pior do que a morte está acontecendo e John precisa investigar. Durante a investigação, acabamos conhecendo um pouco do passado desse novo Constantine. Por meio de alguns flashbacks, vemos um pouco de sua juventude e relação com as artes místicas, além de conhecermos seus amigos e a única mulher que ele realmente amou: Veronica Delacroix. A relação com Veronica não acaba bem, devido à forma inconsequente que John utilizava a magia em favor de sua banda, Membrana Mucosa. Essa relação entre amor, música e magia (ou sexo, drogas e rock n’ roll) é parte fundamental da trama e da busca por Delacroix – ou o que restou dela. Ao mesmo tempo que remonta às origens da versão anterior do personagem, traz um novo respiro, uma forma nova de se contar sua história, mais condizente com os dias de hoje.

A arte de Riley Rossmo é capaz de nos transmitir a sensação de horror que uma história desse tipo precisa, fugindo bastante do padrão que a DC tem apresentado ultimamente. O roteiro de Ming Doyle e James Tynion IV está bastante apurado e transmite muito bem essa nova proposta. Infelizmente, não é um título para maiores de 18 anos e, portanto, existe uma certa censura nos palavrões (e Constantine fala muitos palavrões na edição!). Isso não impede que a sexualidade de John seja explorada, não só ao retratar sua ex-namorada como durante uma transa com uma demônio ou nos flertes com Oliver, dono do café que nos é apresentado neste volume e parece ser o novo interesse romântico do personagem em histórias vindouras.

Esse é um novo John Constantine para uma nova geração de fãs. Saudosos de Hellblazer podem até estranhar, pois ele não carrega toda a carga emocional e cicatrizes de batalha de sua versão mais famosa, mas ainda temos um personagem interessante e com muita coisa a desenvolver pela frente.

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