[Resenha] Criaturas da Noite

Fábulas doces

Criaturas da Noite (Ediouro), escrito por Neil Gaiman e ilustrado por Michael Zulli, é composto por duas fábulas onde o pai de Sandman presta homenagem às criaturas que permeiam o simbolismo noturno: gatos e corujas.

A primeira delas “O preço”, tem como protagonista um gato negro majestosamente insensível que surge a uma família isolada da cidade. Embora com outros gatos para criar, eles não se afastam do novo felino. A fábula é mais intensa se você já passou por essa situação de acolher um gato abandonado, pois toda noite ele desaparece, e toda manhã o felino está de volta. Sujo. Sangrando. Exausto.

O pai da casa trata o gato, limpa os ferimentos, alimenta, e toda noite a mesma fuga felina. Aí entra o mistério: o que acontece com o gato negro quando ganha a noite? Historicamente, os mistérios que envolvem os felinos adquirem várias interpretações em cada cultura; já foram os emissários das bruxas, os portadores de pragas, os animais sagrados que enxergavam os espíritos dos mortos, os elos entre o mundo dos vivos e o dos espíritos, os guardiões das sepulturas, etc, etc…

Gaiman escolhe uma entre tantas tradições folclóricas noturnas envolvendo os gatos e constrói com sensibilidade um enredo singelo e ao mesmo tempo majestoso. O traço de Zulli é romântico e austero. São pinceladas intensas que lembram aquarelas, muita presença de sombra, muitos closes para marcar as expressões e pouquíssimas intervenções entre cada quadrinho. As panorâmicas surgem para marcar a compreensão dos seres imaginários sempre com uma palheta de cores escura, sombreada, com se uma vela estivesse acesa no meio de cada quadro e a sombra do fogo tomasse as bordas do quadrinho.

A segunda fábula “A filha das corujas”, pode ser também considerada um causo popular medonho. A história começa com um aristocrata prometendo a outro (aparentemente escritor) que soube de um acontecimento absurdo que poderia ser motivo de escrita: uma menina recém-nascida fora deixada na porta da Igreja dentro de um cesto com ossos de corujas e segurando na mão mínima uma coruja morta.

Qual o destino da órfã? Primeiro pensam em matá-la. Depois um conselho de anciãos decide exilá-la para um convento feminino afastado da cidade. A criança cresce sem saber falar, pois nunca escutava outras pessoas conversando. Ouvia apenas os morcegos e corujas que faziam ninhos no convento às ruínas. Daqui em diante, Gaiman explora os impulsos violentos dos homens. A virgindade e beleza da menina desperta a curiosidade dos homens da cidade e a hipocrisia dos moralistas se apresenta como tema de “A filha das corujas”.

A paleta de cores Zulli é mais negra nesta história, como se uma névoa de maldade habitasse aquele passado. As dimensões das cenas também são maiores, com mais espaços abertos na composição dos quadrinhos. Os closes permanecem românticos e austeros, aquarelas de solidão, com uma aura melancólica e dramática. Nesta versão, apenas incomoda o tipo de fonte utilizado no decorrer da história. A escolha da fonte cursiva inclinada para indicar que a história se passa num suposto medievalismo, prejudica a leitura. Com dificuldade entendemos as informações e vez ou outra é preferível adivinhar a palavra que tentar lê-la.

Por fim, Criaturas da Noite é o tipo de livro dedicado principalmente aos adolescentes ou aos primeiros leitores que se encantam por fábulas e literatura fantástica. Por ser um livro curto, funciona como um doce de leitura, algo que deixará aquele sabor aos outros trabalhos do gênero. Leitura muito recomendada.