Resenha | Demolidor nº 1

Demolidor-um-novo-começo

Uma das maiores críticas aos quadrinhos de super-heróis é o quanto eles se tornaram complexos para leitores novos ou ocasionais, seja por sagas intermináveis que se conectam em diversas revistas ou simplesmente pelo peso de décadas de cronologia. Por outro lado, as estratégias para combater isso enfurecem os fãs assíduos: truques mirabolantes, pactos demoníacos ou reboots cósmicos servem para apagar ou modificar a vida dos personagens. Nesse cenário desanimador, um material como a nova fase do Demolidor merece todos os elogios possíveis, não somente por sua qualidade pura e simples, mas principalmente pela lição que fica para a indústria dos comics.

O encadernado lançado pela Panini traz as seis primeiras edições do título mensal que começou em 2011 lá nos EUA (sem comentários para tamanho atraso). O sucesso foi inegável, visto os prêmios Eisner de melhor série e melhor escritor, para o veterano Mark Waid. O que torna o trabalho tão digno de nota foi o novo direcionamento adotado, trazendo aventuras mais leves e descompromissadas para O Homem Sem Medo, e a forma como isso foi feito. Antes disso, nas mãos de Brian Michael Bendis, Ed Brubaker e Andy Diggle, Matt Murdock teve uma longa fase de ótimas histórias com clima noir, denso e pessimista. Em bom português, ele se ferrou pra valer. Teve sua identidade exposta publicamente (e passou todo esse tempo negando ser o Demolidor), foi preso, assumiu a liderança da organização criminosa NINDJA Tentáculo, e terminou sendo possuído por um demônio e enfrentando outros heróis.

Como voltar disso? Alterar a realidade, dizer que foi um clone, ou outra “genial” explicação desse naipe? Não. Waid toma o caminho da simplicidade, reconhecendo tudo o que aconteceu e colocando o próprio herói pra dizer que escolheu mudar, encarar as coisas com otimismo e tentar se restabelecer enquanto pessoa, advogado e herói. Dessa forma, a nova fase se inicia sem fazer quem acompanha o Demolidor há tempos se sentir enganado, e sem obrigar ninguém a correr atrás do que veio antes (apesar disso ser altamente recomendável). Em essência, a herança que fica é que agora as pessoas “sabem” que Matt é o famoso vigilante, e ainda que não existam provas concretas e ele continue negando, seu trabalho como advogado acaba sendo prejudicado, resultando em situações muito divertidas.

E na outra metade da vida dupla de Murdock, prevalece um clima de certa forma sessentista/setentista. Um herói brincalhão e ousado, que beija a noiva num casamento da máfia e enfrenta os leões do zoológico. Situações absurdas, mas sem descambar para ingenuidade absoluta ou mesmo galhofa. A necessária maturidade dos quadrinhos atuais se faz presente quando o Demolidor se envolve em conspirações corporativas ou mesmo quando o Capitão América, o “principal policial do país”, aparece pra tirar satisfações sobre seus últimos atos. O equilíbrio alcançado traz a necessária renovação para o personagem, um momento bem menos sombrio que os anos recentes, mas nem de longe algo infantilóide estilo Jeph Loeb.

A arte acompanha essa pegada retrô, e é um show parte. Os desenhistas Paolo Rivera e Marcos Martin têm um estilo muito parecido, um traço limpo, simples e agradável. Mas dá pra perceber algumas diferenças: o primeiro faz uma anatomia mais arredondada, e no geral, um trabalho padrão. Já o segundo usa de linhas mais finas e angulosas, e ousa mais no sentido de diagramação e composição de páginas. Ambos, porém, trazem uma nostalgia interessante ao trabalhar com onomatopeias nos cenários e na retratação do sentido de radar do herói, sua “quase visão”. Um tanto ignorado nos últimos tempos (em favor da abordagem intimista, enfatizava-se a “cegueira” de Matt), esse poder remete às clássicas histórias de Frank Miller nos anos 80.

Como ponto negativo (além do atraso na publicação aqui no Brasil), o preço de R$ 18,90 pela edição de 148 páginas. Mesmo com capa cartonada e papel de qualidade, é salgado. Mas sem dúvida nenhuma vale a pena conferir. Essa é uma gratificante prova de que é sim possível ter boas e acessíveis histórias de super-heróis, em séries mensais DENTRO DA CRONOLOGIA. Quando há talento envolvido, claro.

Texto de autoria de Jackson Good.