Resenha | Demolidor Noir

Demolidor - Noir - Capa

Dando prosseguimento à coleção Noir da Marvel, na qual heróis da Casa das Ideias são inseridos em um contexto policial, o escritor Alexandre C. Irvine e os artistas Tomm Coker e Daniel Freedman apresentam a versão do herói da Cozinha do Inferno, Demolidor, em sombras, realismo, mulheres fatais situados no período da Lei Seca americana.

Nesta série, a estética noir é delimitada como uma narrativa composta por parâmetros específicos como regras institucionais necessárias para a trama. Apesar do aparente esvaziamento para adequar personagens em uma roupagem diferente, o noir é um estilo rico dentro do gênero policial. O desenvolvimento da história importa menos do que a construção das personagens. Uma inversão em relação às investigações de enigma em que o crime era tão importante quanto o detetive.

A maioria dos roteiros da série preenche uma lista simples do que deve ou não conter um noir para adequá-lo ao estilo. Porém, é difícil retrabalhar personagens para inseri-los em outros contextos sem deslocá-los completamente das características originais. No caso de Demolidor, um personagem urbano que há muito tempo dialoga com uma estética realista e crua, não há uma grande recriação e, por consequência, um impacto menor em diversificar o herói.

Matt Murdock mantém a parceria com Foggy Nelson, mas se torna um investigador informal da Cozinha do Inverno. Um vigilante que perdeu a visão quando seu pai boxeador foi assassinado e reaprendeu a utilizar seus outros sentidos, incluindo uma passagem na infância por um circo da cidade. O roteiro enfoca a mudança que a cegueira trouxe ao garoto, destacando com dubiedade as novas percepções apuradas. Ao mesmo tempo que Murdock se torna mais atento ao mundo a sua volta e conquista vantagens naturais sobre outras pessoas, sua habilidade lhe impede momentos de tranquilidade e solidão.

Iniciada in media res – estilo de narrativa que começa no meio da história –, a trama mostra o herói invadindo a casa de Wilson Fisk para um embate. Fisk e Murdock dialogam e estabelecem a origem que promoveu este encontro. Na Cozinha do Inferno, um novo assassino começa a assassinar capangas rivais de Fisk, e Demolidor investiga tais acontecimentos. Ao mesmo tempo, uma mulher misteriosa pede apoio a Foggy e Murdock por seu envolvimento com um mafioso local.

A narrativa de Irvine se sustenta bem com um bom personagem central narrador da história. Porém, nada acrescenta ao personagem urbano, nem mesmo em relação a reflexões metafísicas sobre sua condição. Fosse uma trama sem nenhum herói, talvez seria mais funcional. A maior diferença entre o protagonista original e esta versão é deixar a inferência de que Murdock escolheu formas definitivas de diminuir a corrupção do local ao matar os vilões. Porém, o próprio roteirista afirma que essa percepção foi deixada em aberto para interpretação de cada leitor. Dois grandes personagens, Elektra e Mercenário, foram transformados em um só na figura da femme fatale Eliza. Uma mulher que desde o primeiro encontro deixa Matthew apaixonado, mesmo que em nenhum momento da história se estabeleça alguma cena de afeição entre ambos.

A composição inicial e o desfecho da série realizam um bom recorte que representa a continuidade da luta do herói contra a corrupção do local. Mas dentro de um projeto cuja temática é a releitura narrativa, a história falha por não conseguir ir além da excelente representação tradicional, modificando pouco de suas estruturas, como se preenchendo os requisitos mencionados apenas para se adequar ao contexto.

Especialmente para a edição nacional, Irvine escreveu um prefácio exclusivo, presente na publicação da Panini Comics. O quadrinho mantém o padrão das edições anteriores, com capa dura e um preço acessível, e ainda contém uma breve entrevista com o desenhista e as diversas capas originais.

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