Resenha | Devilman

Em 1972, o autor japonês Nagai Go iniciaria um dos mangás mais clássicos já feitos. Estou falando de Devilman, obra que rende discussões e novos produtos até hoje. Devilman teve grande inspiração na obra anterior de Nagai, Demon Lord Dante.

O início do mangá mostra uma guerra brutal entre anjos e demônios, sem diálogos, apenas violência e sangue. Esta guerra ocorreu nos primórdios do tempo. Séculos depois, na década de 1980, um grupo de pesquisadores encontram demônios congelados no Himalaia (referência indireta a Lovecraft?) que se libertam e, provavelmente, se espalharão pelo mundo. Interessante que, até aqui, o estilo de arte é mais realista e detalhado. Nas páginas seguintes, tudo fica mais estilizado.

A história avança para dias mais atuais. O jovem estudante Akira Fudo vai à casa de seu melhor amigo, Ryo. Ele quer mostrar a Akira alguns objetos de estudo de seu falecido pai, que era arqueólogo. Um estudo sobre demônios. Eles começam a se envolver demais em descobrir outras coisas sobre as criaturas e, em determinado momento, Akira sofre uma possessão. Porém, sua natureza humana prevalece e ele não perde o controle de si. Nasce aí o primeiro ser de uma espécie híbrida de humano e demônio: Devilman.

Akira sempre foi uma pessoa muito boa, daí o aparente motivo pelo qual o demônio não tomou sua consciência. Com tamanho poder em suas mãos e sabendo que os demônios pretendem se espalhar na Terra, ele e Ryo iniciarão uma caçada aos seres do inferno.

“Um super-herói demônio bondoso”, você deve pensar. Eis a genialidade de Nagai Go. Em um primeiro momento, somos levados a crer que Devilman será um grande herói que lutará contra os demônios maus. E de fato o faz ao longo de todo o mangá. Mas no decorrer da obra, as coisas seguem para rumos inesperados. Inclusive o gosto de Devilman pelo combate, herança de seu demônio possuidor Amon.

Tanto a arte quanto o estilo narrativo do mangá remetem à sua época. Os traços são precisos e conseguem retratar as cenas de forma muito competente. O estilo dos personagens podem gerar estranheza para quem está acostumado aos animes e mangás mais atuais. A narrativa é bem explicada (até demais), o que por um lado facilita a leitura e compreensão, mas que por outro pode cansar alguns leitores. O ritmo é mais lento, os capítulos têm, em média, 50 páginas, diferente dos mangás atuais,  que geralmente se mantém entre 20 e 30. A vantagem é que boa parte dos quadros não tem falas, então a leitura não se torna cansativa.

De início, os demônios estão invadindo a Terra de forma discreta, possuindo humanos para se infiltrarem sem chamar tanta atenção. A partir daí, Akira e Ryo vão caçar esses demônios. Vale destacar o design das criaturas, uma mais bizarra que a outra, algo que somente os japoneses conseguem fazer. O grotesco body horror é muito presente na obra, além de muita violência explícita.

Dentre as inúmeras possessões, ocasionalmente, algumas fusões de pessoas e demônios originam outros devilmen, mas que não ganham tanto destaque até os momentos finais da trama.

Ao longo da jornada,a situação piora, e demônios cada vez mais fortes aparecem. Os capítulos finais são de uma brutalidade absurda, Nagai Go não teve medo de jogar na sua cara o lado mais podre do ser humano. Este é o grande mérito de Devilman. O autor, de forma brilhante, mostra que o ser humano pode ser pior que um demônio, e que, ironicamente, o humano-demônio (Akira/Devilman) talvez seja o personagem mais humano da história! Um caos generalizado ocorre nos capítulos finais, e isso desperta a podridão da humanidade, gerando um verdadeiro apocalipse.

Podemos dizer que o ponto central de Devilman é analisar até onde o instinto selvagem do ser humano pode chegar, até onde a histeria coletiva pode destruir a tudo e a todos. E mais, que o grande vilão talvez tenha razão! Será que a humanidade é a vítima da situação?

Devilman é uma obra visceral, cruel, pesada, herege, brutal e tantos outros adjetivos negativamente positivos. Por mais que o mangá seja bem antigo, vale muito a pena correr atrás e ler sem receber spoilers. Não há uma publicação oficial no Brasil, mas enfim, dê o seu jeito e aprecie um dos mangás mais importantes já publicados. Mas vale deixar avisado: a obra pode ofender a fé de algumas pessoas devido às abordagens de símbolos religiosos.

Se interessou pelo mangá? Ótimo! Pare por aqui e vá buscar a obra original. Caso não se importe com spoilers, segue abaixo o que acontece na reta final da trama.

Ryo vai a uma grande emissora de TV e revela diversas informações sobre os demônios. Porém, distorce muitas delas. Por exemplo, diz que qualquer pessoa pode se tornar um demônio, sendo possível identificar a partir de mudanças de personalidade. Para dar mais credibilidade a esta afirmação, Ryo exibe um vídeo de Akira se transformando em Devilman. Essa foi a chave para criar uma histeria coletiva e derrubar o mundo inteiro no absoluto caos. Inicia-se uma Caça às Bruxas onde qualquer um se torna um alvo. A humanidade começa a se auto-eliminar, pessoas comuns se tornam assassinos loucos, a carnificina se espalha pelo mundo.

No meio da histeria, a família e amigos de Akira são cercados em sua casa, e todos são brutalmente assassinados. Suas cabeças são espetadas em hastes de madeira enquanto os assassinos dançam insanamente em volta da casa em chamas, numa espécie de festividade bestial. Akira vê aquilo e cai em desespero. Ele percebe que os verdadeiros demônios são a própria humanidade.

Akira vai atrás de Ryo para questionar o motivo pelo qual revelou informações falsas que levou a humanidade àquele caos. Aqui temos a grande revelação da obra: Ryo era, na verdade, o próprio Satanás. Nos primórdios do tempo, os demônios nasceram por um erro de Deus. O Criador quis eliminar esses “erros”, porém Satanás não aceitou. Por que eliminar os demônios sendo que são sua própria criação? Com isso, Satanás se rebela contra Deus e se isola.Quando finalmente retorna ao mundo, percebe que uma nova raça está parasitando o planeta: os HUMANOS! Com o objetivo de eliminar essa raça e garantir a sobrevivência dos demônios, Satanás traça um plano: descobrir a fraqueza da humanidade e, com isso, eliminá-la. A forma mais eficaz seria se tornar um humano para entender essa raça. A partir daí, ele criou uma situação para que Akira fosse possuído, e o resto vocês já sabem.

Após a revelação destruidora, Akira declara guerra a Satanás e passa muitos anos recrutando todos os devilmen remanescentes da Terra. Uma batalha sangrenta é travada, e Satanás sai vitorioso.

A cena final é emblemática: Satanás e Akira estão deitados no chão, a céu aberto, cercado pelo mar. Satanás é um ser assexuado, mas nutre uma paixão por Akira. Ele reconhece que eliminar a humanidade foi um ato similar àquele que Deus faria com os demônios. Ele pede perdão a Akira, mas, quando a “câmera” se afasta um pouco, vemos que o amigo está morto, e sem a metade inferior de seu corpo. Satanás venceu a batalha contra os humanos, mas chora pela morte de Akira. Então, um exército de anjos aparece no céu para arrebatar o que sobrou das forças de Satanás.