Resenha | Dias da Meia-Noite

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O prestígio de Neil Gaiman no cenário mundial dos quadrinhos permitiu o lançamento desta coletânea editada originalmente em 1999, reunindo trabalhos dispersos do roteirista britânico. Não à toa. O autor sempre demonstrou qualidade tanto em trabalhos autorais quanto em revistas mensais, com um estilo narrativo consistente e, normalmente, filosófico.

Lançado pela primeira vez em versão integral e expandida – anteriormente a Pixel lançara somente três histórias da edição –, Dias da Meia-Noite apresenta a reunião de cinco histórias compiladas, além de uma inédita, desenhada especialmente para a publicação. Cada história apresenta um prefácio do autor contextualizando a obra e trazendo maiores informações sobre a sua composição.

A primeira história do volume, Jack In The Green, apresenta uma trama inédita, escrita por Gaiman mas engavetada pelo estúdio, e agora presente nesta edição especial. O elemental Jack, um monstro do pântano de outra época, cuida de um amigo prestes a morrer, vítima da peste negra. Trata-se de uma bonita história fechada, com um leve toque de fábula, sobre uma reflexão a respeito da evolução humana, vista por uma figura observadora que caminhou pelos continentes. Reverenciando a escrita de Alan Moore, a edição conseguiu reunir os desenhistas, colorista e letrista, que trabalharam na época de Moore, para este especial. Uma dupla homenagem ao autor, que modificou as estruturas da personagem, e aos responsáveis pela identidade visual do monstro.

As próximas duas narrativas vieram de uma edição anual de Monstro do Pântano. A primeira, diz o roteirista no prefácio, seria parte de uma saga que escreveria para a revista. Porém, após a editora negar o roteiro de um amigo que trabalharia alternadamente com ele, o britânico descartou a ideia de trabalhar no periódico. A história resgata um antigo personagem da cronologia do monstro como argumento para um futuro arco que nunca aconteceu. Talvez, para os leitores que desconhecem a trajetória da criatura, esta seja uma trama quase descartável, tendo mais importância histórica do que narrativa.

A segunda história, retirada de Monstro do Pântano Anual, é a única parceria de Gaiman com Mike Mignola. Um breve enredo sobre o universo da personagem, outra trama filosófica que pouco acrescenta ao compilado mas demonstra a devoção do autor pelo mestre Moore, reassumindo outra criação do bruxo em sua fase na revista.

A edição #27 de Hellblazer é uma das mais bonitas histórias da Vertigo. Um roteiro breve, de 25 páginas, em que o roteirista demonstra sua habilidade em narrar uma trama ao mesmo tempo que trabalha em um movimento filosófico maior. Abraço tem um tom poético e impressiona pela carga dramática aprofundada a cada página. Enquanto John Constantine vai a uma festa de amigos, sente o tédio da velhice e recebe uma proposta inadequada de um casal de lésbicas que desejam um filho seu, um espírito de um mendigo trafega pelas ruas procurando quem possa esquentá-lo. Diante de um universo metaforicamente frio onde os sem-teto são quase invisíveis na sociedade, Constantine é o responsável pelo bonito abraço que aquece o homem. Os traços de Dave McKean, sem dúvida uma das melhores parcerias de Gaiman, compõem o tom acinzentado da obra e, em rabiscos, acentuam a desconexão social do homem à procura de um simples gesto que transmita calor. Póetico e surpreendente.

Outra excelente história é a intersecção de dois personagens em O Teatro da Meia-Noite de Sandman, um crossover entre os dois Sandman: o primeiro vindo da Era de Ouro e recriado por Matt Wagner em uma revista na década de 90, e o perpétuo mestre dos sonhos. A trama foge de um bobo encontro direto das personagens, em respeito à cronologia de cada revista. Na época em que O Teatro do Mistério ambienta-se, Sonho mostra-se aprisionado por um encantamento. Gaiman desenvolve o roteiro ao lado de Wagner em uma história policial que leva Wesley Doods até a Inglaterra para investigar o suicídio de um amigo, que tinha posse de um convite para uma festa que reunia diversos magos do mundo. Trata-se da trama mais longa do gibi, e bem equilibrada entre os dois universos: a investigação característica do Sandman de Doods e os elementos místicos de Sono, presente em poucas páginas devido a seu confinamento. Uma trama densa que não deturpa as narrativas de cada revista e ainda acrescenta um elemento extra em cada uma.

A última história trata-se de um acréscimo de uma reedição feita em 2012. Com desenhos de Sérgio Aragonés, Bem-vindo à Casa dos Mistérios é uma apresentação quadrinesca utilizada em cada edição desta revista que reunia contos de terror. Novamente, como a obra anual de Monstro do Pântano, a inclusão da edição é mais histórica do que importante como trama. É interessante para observamos o quanto Gaiman escreveu em diversas frontes e sempre foi capaz de extrair elementos de cada uma delas, sem perder seu estilo como autor. Uma das provas de seu talento.

Como uma coletânea de edições específicas, é evidente que algumas histórias necessitam de um contexto ampliado para compreensão completa. Outros compilados de obras, como a de Alan Moore, editado pela DC Comics, também sofrem problemas interpretativos quando a história precisa de um contexto que o público possa desconhecer. Dessa forma, a história de Hellblazer, o crossover dos dois Sandman e o roteiro inédito de Monstro do Pântano são os verdadeiros destaques da edição, por serem funcionais mesmo sem precisarem de nenhuma referência externa. Uma boa edição merecida para o marco dos quadrinhos que Gaiman se tornou.

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