Resenha | Dodô

“Do lado de lá tanta aventura
E eu a espreitar, na noite escura
A dedilhar, essa modinha…” – Até Pensei
, Chico Buarque.

Quem é o seu Dodô? O que é o seu E.T.? Deus, a arte, os pesos da academia? O substituto das ausências que a vida separa para cada um de nós surge de tantos lugares, em tão diversas formas, que fica fácil a gente escolher mais de um escape para nos preencher, de alguma forma. Nas sociedades do século XXI, as várias opções tecnológicas vêm exercendo esse papel de “amigo imaginário”, tanto para crianças como adultos, em todos os ambientes e situações possíveis. Parece que a realidade, quando não é mais o bastante, seja pelo motivo que for, faz a mente por si só precisar dos seus consolos básicos e práticos de todo dia.

A inspirada e leve história em quadrinhos Dodô trata exatamente do desdobrar desses temas, uma espécie de auto engano voluntário que fazemos para escapar de certas situações difíceis – a separação dos nossos país, ou aquela festa chata em família de fim de ano. Laila vive entediada, e ainda por cima fora da escola primária, os seus dias se arrastam num ciclo sem novidades e pura solidão, com uma mãe que trabalha para a filha, mas sem viver para ela. Sem ninguém, exceto a babá Neide que tampouco tem tempo pra ela, a imaginação da menina dá vida ao vácuo existencial que só aumenta. Injeta ânimo, borrifa as cores que toda criança ainda carrega nos olhos, e assim, criativa, projeta infinitas alternativas ao tédio. Até uma delas se tornar realidade.

A diferença da sua maior criação, cheia de penas e um bico enorme (aquela ave colorida que o menino de UP: Altas Aventuras adota na floresta, ou aquele bicho amalucado de Alice no País das Maravilhas) para um celular de último tipo, com tela gigante e cinquenta e oito câmeras traseiras, é ser um organismo vivo, ao invés de um mecânico e frio. A partir disso, as distinções de um para o outro são poucas, como se nota aqui na belíssima graphic novel brasileira de Felipe Nunes. Ambos são ferramentas servindo a quem as precisa, importantes e um tanto encantadoras. Dodô surge num arbusto do parque municipal Santa Mônica, inquieto e impossível de não se notar pelo tamanho do bicho, como a tela de um iPhone que se acende no escuro. Alguém deu o comando, numa tarde normal de verão – até agora.

E quando Laila, de seis anos, a melhor idade, o olha pela primeira vez como quem invoca algo sem perceber o poder da sua vontade, vê nessa criatura a resposta (inventada) pro seu vazio. Filha de pai recém divorciados, a aventura precisa brotar de algum lugar, e não apenas nos seus sonhos – como quando Dodô aparece para Margarida, o apelido de Neide para ela, e a leva montada nas suas costas até uma escrivaninha que contém o motivo pela separação que tanto abalou emocionalmente a menina. Sonhando acordada, já que ela não tem contato com outras crianças, Laila e seu pássaro escudeiro não encontram gaiolas para alcançarem o afeto que falta no cotidiano, neste belo conto de cunho pedagógico de mensagens verdadeiramente universais, e facilmente acessíveis para todos os tipos de público, e idade.

Um escapismo clássico regido por uma irreverência e uma fé infantis a toda prova, mas que, sob a sensibilidade de Felipe Nunes, esse jovem quadrinista de 23 anos, torna-se simbólico e gracioso até, provavelmente, não poder mais. Bem conservado pelo zelo que a editora Panini apresenta em suas publicações, o uso das cores em mil e uma formas abstratas é necessário, transmitindo, através de suas vibrações, uma psicodelia visual que abraça a existência de um amigo imaginário dentro de uma casa normal invadida pelo fantástico, pelo corre-corre que quebra as “coisas de adulto” que Laila não quer saber. Ela não precisa saber. Laila precisa, isso sim, de mais escola, menos discussões familiares e, se possível, de um amiguinho de verdade. Mas pelo menos sua mãe não lhe dá um celular para fazê-la ficar quieta. Sortuda.

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