Resenha | Dora

De Bianca Pinheiro, Dora é uma história de mistério que explora o depoimento de uma mãe que tenta em seu testemunho provar a inocência de sua filha, acusada de crimes hediondos. Os desenhos minimalistas reforçam a ideia de isolamento, durante o interrogatório em que a mãe tenta construir uma imagem de inocência para sua “criança”, Dora, que era calada e tímida desde sempre.

Logo no capítulo um, Choro, se nota que ela ainda bebê não chora, não emite som algum e é dona de um estranho olhar penetrante. Desde pequena havia dificuldade de encontrar babás. Até por conta dessa fuga de cuidadoras, os vizinhos tinham curiosidade em ver a menina, e na sua festa de um ano, um acontecimento catastrófico é atribuído ao tal bebê. Há semelhanças envolvendo o tema com filmes cujas crianças tem a raiz do mal em si, como A Profecia e A Infância de um Líder, e até um pouco de Bebê de Rosemary, no sentido de a geração anterior à vinda do mal não assumir que algo está errado com o seu descendente.

Bianca Pinheiro também é autora da série Bear, Alho-Poró e também da graphic novel Mônica Força, da iniciativa da MSP de releituras das obras de Maurício de Souza e apreciar Dora dá uma boa ideia do quão eclética é sua obra e criatividade. A história é simples, não tem rodeios em explorar suas próprias tramas e é equilibrada nessa exploração, apelando pouco para a dubiedade, só utilizando quando é necessário. Destaque para o trabalho da autora por meio de um traço simples e expressivo, utilizando com maestria o preto e branco para criar ambientações e climas.

Aos poucos, o horror toma conta das páginas em uma crescente já esperada. A riqueza no trabalho de Pinheiro consiste na construção da alienação que a mãe se auto-impõe, pondo à prova o tempo inteiro a questão básica do amor materno ser incondicional ou não, e quais são os limites dentro desse clichê.

Dora é uma revista simples, com uma história direta mas ainda assim muito inventiva, sem receios de assumir seus referenciais, como a literatura de horror de autores como Stephen King e o cinema de John Carpenter e David Cronenberg, e em especial no quesito de tratar da puberdade como uma época tão confusa e turva, que abre possibilidade da manifestação do mal antigo, unido é claro a aura de mistério secular, já que as manifestações ocorrem desde muito cedo, no nascimento da menina. Apesar de não se tratar de um roteiro original, a versão que Pinheiro dá para o mito da criança assustadora tem sua própria identidade e caráter, tendo uma abordagem universal e que funcionaria com a maioria dos públicos, exatamente por se empossar de elementos impressos na cultura popular.

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