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Resenha | Dylan Dog - O Despertar dos Mortos-Vivos

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Sclavi e Stano introduzem o universo do personagem da Bonelli sem muitos circunlóquios, a ação é intensa e abusa de clichês de exploitation, como nudez gratuita e referências ao cinema americano de zumbis, mas especificamente A Noite dos Mortos Vivos de George A. Romero. Não poderia ser melhor representado o método de detecção do auto-intitulado Investigador do Pesadelo Dylan Dog, seu método inclui o confronto direto e sem embromação.

A ausência de cores ajuda a aumentar a aura de filme de terror presente na história, que fica ainda mais interessante graças ao carisma dos personagens, tanto o protagonista quanto o seu Sancho Pança particular. As semelhanças com outros análogos da cultura pop é facilmente notada, a predileção pela flauta de Dylan Dog é semelhante ao Stradivarius de Sherlock Holmes, assim como toda a viagem de infecção por mortos-vivos lembra muito a abordagem escolhida pelo realizador Lucio Fulci na continuação não oficial de Despertar dos Mortos, a forma como o morto andante ataca a moça lembra absurdamente Zombie.

Quando analisada a causa do despertar dos mortos, é possível verificar uma amálgama de referências, desde o Doutor Wesker de Re-Animator, e até prenunciava coisas vindouras, como a franquia Resident Evil e o remake de Zack Snyder, Madrugada dos Mortos. A verborragia presente nos diálogos rapidamente insere o leitor dentro do universo particular do detetive, deixando tudo mais curioso, indo muito além do simples cenário regado a fantasia de monstros de horror movies.

A fleuma britânica do personagem título faz uma mistura interessante com a psicodelia de suas desventuras, além é claro do seu envolvimento com ciências ocultas, o que gera na equação um fino equilíbrio. A escolha por abordar os mitos ligados ao Vodu haitiano, como uma incessante busca pelo elixir da imortalidade é interessante, principalmente por explorar a situação de uma figura espiritual canônica como é o caso do vilão Doutor Xabaras, mas que se prova repleta de buracos e incongruências, mostrando-se uma tentativa falha de vencer a morte ao transformar os ressuscitados em criaturas acéfalas. Isto seria a parte primária do experimento e segundo a ideia do doutor, serviria como desrepressão ao instinto canibal do homem, o que não é um conceito de todo infundado à luz do pensamento freudiano.

As últimas 30 páginas reservam uma correria desenfreada, onde o trio de heróis tenta fugir de uma horda de mortos-vivos. A violência do lápis de Stano é pródiga e implacável, explícita como um bom filme do gênero e o suspense do roteiro causa uma enorme sensação de aflição no leitor. A astúcia de Dylan Dog é posta a prova e ele se mostra um sagaz planejador, com toda a ironia e sarcasmo frequentes na publicação da Bonelli. O Despertar dos Mortos-Vivos é uma ótima introdução às histórias do Investigador do Pesadelo, é balanceada entre ação, suspense e terror, e livre de grandes pretensões quanto a mensagem, é simples, direta ao ponto e honesta em sua proposta, que é entreter o fã do gênero de Terror.

Filipe Pereira

Filipe Augusto Pereira é Jornalista, Escritor, quer salvar o mundo, desde que não demore muito e é apaixonado por Cinema, Literatura, Mulheres Rock and Roll e Psicanalise, não necessariamente nessa ordem.
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