Resenha | Fábulas – Volume 1

A ideia de juntar o fabulesco com o real, as criações dos irmãos Grimm, de Walt Disney e outros antigos autores, e fazê-las se cruzar em mil e uma situações pelas calçadas e prédios de Nova York, é irresistível demais para habitar apenas o terreno das idealizações. E qual outra mídia seria mais adequada para o surreal explodir com suas cores, seus célebres exageros, seu ideal satírico do que as histórias em quadrinhos?

A nona-arte consegue abordar com naturalidade e fascínios impressionantes a crueza do mundo real, cheio de leis, sexo e contradições, e ao mesmo tempo o fabuloso e o onírico, sendo um palco narrativo mais do que perfeito para uma premissa que visa juntar todas as figuras (ou boa parte delas) dos contos de fadas, e de outras mundialmente famosas reinações infanto-juvenis, em torno de um crime sem solução.

Sempre no limiar entre a verdade, e a ficção, a trama desse primeiro volume se inicia com o arco Lendas no Exílio, e envolve os mitológicos Branca de Neve, o Lobo Mal, Príncipe Encantado, Barba Azul e muitos outros ícones em forma humana, infiltrados na sociedade americana após fugirem dos reinos encantados onde moravam, escapando de uma força demoníaca avassaladora. Conformados, e cientes de precisarem superar suas desavenças clássicas para sobreviverem do lado de cá, tudo vai bem até que o exílio dessas figuras é conturbado pela morte de Rosa Vermelha, a irmã de Branca de Neve.

Ao desencadear uma investigação que nos faz conhecer a fundo vários segredos, descobrimos junto do Lobo Mal, o experiente detetive que parece uma versão caricatural de William Somerset, de Os Sete Crimes Capitais, que ninguém consegue se manter inocente neste mundo real. Com um mistério pedindo resolução, todas as personagens acabam se entrelaçando (a relação de um dos três porquinhos com o Lobo é ótima, mesmo que rapidamente mostrada), mas bem distante do contexto e dos valores fabulescos que aprendemos a vê-los, desde a nossa infância.

Todos(as) estão jogados aqui numa espécie de rascunho de um conto mal elaborado de Agatha Christie. Isso porque a história é totalmente dependente da sua premissa inicial, e fraca no desenrolar da trama oriunda da ideia central. Em certos pontos, a trama (frágil, e previsível) recicla alguns diálogos expositivos e certas explicações também, pois parece não se sustentar com seu pleno desenvolvimento. Aqui, o roteirista Bill Willingham prefere sempre olhar o passado para desdobrar as situações presentes, e nunca alçar o futuro, como nem mesmo o final um tanto inseguro, deste primeiro volume, consegue transparecer.

Mantendo um certo interesse (em especial nas primeiras cenas, nas quais as interações entre personagens provam o potencial pobremente aproveitado da história), e com belíssimos painéis beneficiados pelo traço instigante e detalhista de Lan Medina, o começo desta saga publicada no Brasil em 2012 pela editora Panini, sob o selo Vertigo, da DC Comics, conta com inúmeras lendas dos contos de fadas refugiadas em um cenário urbano, onde é proibido revelarem suas reais aparências. Porém, em termos de juntarem essas figuras em torno de um desaparecimento de uma delas, em uma ambientação atual, cínica, e cheia de conflitos mesquinhos, digamos que o antigo O Mistério de Feiurinha fez muito menos, ser muito mais.

Afinal de contas, a resistência, o não-conformismo e a luta instigam muito mais que a possível vitimização, o silêncio e a fuga conformista dos exilados. Com Fábulas – A Revolução dos Bichos, a evolução natural da história acontece, com seus elementos básicos sendo muito mais bem aproveitados que no início desta saga sobre os mitos refugiados, e em convívio, neste nosso mundo real não tão doce, e colorido, assim. Se no fraco Lendas no Exílio, os ícones dessa dimensão surreal precisavam se acostumar com um novo cenário, e com a saudades da terra natural (de onde foram enxotados, por uma força diabólica irrefreável), agora chegou a vez da revolta dos exilados – e no maior estilo George Orwell, versão luta armada de guerrilha.

Saem os conformados civilizados, entram os rebeldes inconformados: não mais na Nova York do volume anterior, mas numa fazenda isolada aonde as lendas que se recusam a ficar numa forma humana precisam morar – bem longe dos olhos dos “mundanos”, como por eles somos chamados, assim como éramos os “trouxas” para os bruxos de Harry Potter. Cientes de que não estão vivendo um “felizes para sempre” nesta fazenda, já que o gosto de injustiça ainda é muito presente para eles, os porquinhos apenas desejam reconquistar o reino encantado de onde todos precisaram escapar da noite, para o dia.

A tanto, um ideal separatista toma conta dos ânimos das criaturas da Fazenda, e os porcos se mostram militantes obstinados a agregar mais pessoas a aventura de retomada do seu lugar de origem. Caso contrário, a opinião é de que nunca terão de volta a liberdade e a segurança que tinham, mas nem todos querem se arriscar. Numa crítica ao totalitarismo, e a selvageria que habita em toda ideologia imposta a uma população, a história se entrega ao gênero de aventura de suspense, recheada de pequenos bons momentos satíricos quando a tensão é capaz de sufocar quaisquer dos leitores, numa trama deliciosamente imprevisível.

Neste segundo volume, muito mais bem resolvido e ousado, vários clássicos da literatura do pós-guerra são homenageados, como o próprio A Revolução dos Bichos, de Orwell, e o extraordinário O Senhor das Moscas, de William Golding. Quando uma facção começa a se formar na fazenda das fábulas, uma luta pelo poder toma corpo entre os conterrâneos que deveriam se unir contra um mal maior. Assim, lidando com esse trabalho de filosofia moral que a história sobre separações e autoritarismo oferece, o roteirista Bill Willingham explora com grande dinamismo as relações mundanas entre os ícones mitológicos, e acima de tudo, a ética dessas criaturas que passam a lidar com seus choques ideológicos num mundo antes simples, e hoje, complexo.

Mortes, prisões, e reviravoltas inesperadas começam a dar o tom, e o plano que era o melhor para todos os exilados, vira exatamente o contrário. Ninguém está seguro, mais, e todos parecem ser cúmplices de verdades absolutas que não beneficiam ninguém. Difícil acreditar que Branca de Neve, o coelho da Alice, e até mesmo uma Cachinhos Dourados armada não merecem nossa confiança, mas nota-se ser impossível reconquistar o reino encantado, e manter a paz entre todos, ao mesmo tempo. A Revolução dos Bichos é uma ótima e reflexiva diversão com uma arte gráfica belíssima, e belos painéis ilustrando novamente este mundo remodelado, e tão simbólico quanto real, do ‘era uma vez’.

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