Resenha | Fábulas – Volume 2

Escondidos na nossa dimensão, eles tentam passar despercebidos – enquanto a coisa só complica entre eles. Só o amor, na causa. Causa, no caso, dessas pobres fábulas perdidas e em constantes conflitos, uma com a outra, em que apenas um laço forte e sincero entre elas pode lhes salvar a pele, nas mais perigosas situações que se metem – e todo o resto é fadado a morte, e ao fracasso. No mundo dos homens, em que não há moral nem final para as histórias, já que a vida real é uma sucessão de coisas inacabadas ou mal terminadas, as figuras icônicas de Fábulas sabem que tudo é complexo e imprevisível demais, as vezes perverso também, e para sobreviver a uma realidade dessas, só se convertendo a seus princípios – sejam eles quais for.

E onde fica o amor do xerife Lobo Mal, pela durona Branca de neve? Do mafioso e milionário Barba Azul, pela revolucionária fugitiva Cachinhos de Ouro? Tudo à base de interesses e intrigas, é claro, já que até o Príncipe Encantado esconde segundas e oitavas intenções da sua ‘amada’ Aurora – de quem só quer o dinheiro. A pureza não resiste a lógica mundana. Aparentemente, os autores aqui não apenas americanizaram e capitalizaram essas figuras de acordo com a moral financeira de uma sociedade, cujo poder financeiro é o que manda, mas neste terceiro volume da série, O Livro do Amor, deixam claro que a felicidade e o êxito, em qualquer coisa na vida, não podem ser atingidos sozinhos, e muito menos sob a égide do mal.

Soa um tanto moralista, mas ironia dessas histórias reside justamente nisso. Assistimos a desconstrução dos inocentes enquanto acompanhamos um jogo de interesses tomar corpo e armar suas terríveis consequências, já que todos querem a cabeça da rebelde Cachinhos de Ouro, por ter colocado fábula contra fábula em busca de poder, no segundo volume, A Revolução dos Bichos. Escondida junto do seu amante Barba Azul, ela é descoberta e parte para a vingança contra os envolvidos na sua caça. Nem mesmo a mais angelical donzela evita em pegar num rifle e enfiar machados na cabeça de ninguém, em momentos tão chocantes que poderiam fazer parte de um filme de Quentin Tarantino – como no conto de abertura da revista, em que João das Montanhas, do folclore americano, consegue enganar e prender a própria morte para dar mais tempo de vida a sua amada.

Este terceiro volume perde muito tempo, recompensado pelo belo trabalho gráficos de alguns quadros coloridos, com histórias paralelas que pouco contribuem com a trama principal de Branca de Neve, Cachinhos de Ouro e seus companheiros de fé. Com quase duzentas páginas, há inúmeros personagens cujas tramas se cruzam com certa naturalidade e um bom ritmo de leitura, atrasado por vezes com pequenos contos sem importância, e que são válidos apenas para explorar o potencial desta situação bidimensional, em que princesas e entidades do folclore mundial vestem terno, salto alto, usam celulares e se defendem, como podem. Em meio a boa dramaturgia e a ação de uma condição dessas, o final feliz do Lobo Mal e companhia (nem tão mal assim, já que na vida real o maniqueísmo absoluto não dura) parece ser uma utopia difícil de acreditar, tal como também o é para todos nós. Como diria Woody Allen: “a realidade é chata, mas ainda é o único lugar onde se pode comer um bom bife.”

A Marcha dos Soldados de Madeira deveria se chamar ‘A guerra dos exilados’, uma vez que, agora, a subversão dos valores das figuras do mundo da magia, no mundo humano, em contato com os princípios complexos das relações humanas, é o que impera. Tudo é virado de ponta a cabeça, ninguém é quem parece ser, e a trama toma caminhos totalmente inesperados. Com a iminência do nascimento do filho de Branca com o Lobo, os protagonistas da série, há cada vez mais forças da dimensão em que todos vieram influenciando a paz das fábulas sobreviventes, escondidas parte em Nova York, e metade numa fazenda no interior americano. Tentando viver uma vida normal, enquanto uns tocam blues e outros tentam vender os feijões mágicos que lhe sobraram depois de tantos anos, uma personagem surge sem ninguém esperar por ela: Chapeuzinho Vermelho. Mais misteriosa que nunca, cheia de amor para dar, e histórias bem estranhas para contar.

Mas nada mais é tão simples quanto, um dia, já foi para os envolvidos em sua tenra e fabulesca história: a realidade roubou a magia dos olhos dela, e agora, surge no mundo real como emissária direta do mal que assola a dimensão de onde todos conseguiram escapar. Um exército inspirado em Pinóquio, com soldados literalmente rústicos numa clara alusão ao mito dos homens de preto (agentes do governo dos EUA e que, supostamente, atuam entre civis a serviço das forças ocultas de inteligência do país), marcha em direção ao prédio nova yorkino onde estão a maioria das fábulas exiladas. Um estado de emergência se forma, mulheres e crianças também vão precisar lutar, e com o desaparecimento repentino do xerife Lobo Mau, o desespero só aumenta para aqueles que não tinham grandes problemas nas clássicas alegorias literárias do passado, mas agora, carecem um do outro para não serem assassinados em um grau de realismo assustador.

A história é longa, e desta vez, sem tempo a perder em contos paralelos igualmente longos, mas entediantes. Logo no começo, somos apresentados a uma épica guerra na terra natal das fábulas, o que rende belíssimos quadros repletos de detalhes das paisagens, e suas criaturas fantásticas – dragões, homens-corvo, ogros e guerreiros de todo tipo. Padecida na batalha, e tida como morta, Chapeuzinho Vermelho nunca esqueceu do amor que cultivava pelo Menino Azul, o jovem amigo de Branca de Neve e o único conhecedor vivo dos horrores no campo de batalha que acometeram Chapeuzinho – e o que mais sofre, com seu retorno. É preciso afirmar, novamente, como este quarto volume de Fábulas, diferente de O Livro do Amor, flerta metaforicamente com o tema da perversão, no qual muitas garotas (e garotos) são expostos, geralmente por questões culturais, com suas vidas e sua índole alteradas para sempre em um processo, muitas vezes, sem volta.

As fábulas, mesmo lutando contra o temível e homônimo soldados de madeira, se veem no dilema (i)moral de Chapeuzinho, já que neste mundo, é muito fácil sair dos trilhos que uma vez foram sugeridos como uma boa escolha, a alguém, mas é preciso lutar contra uma deles, o que os torna, é lógico, enfraquecidos como comunidade. As duas publicações aqui citadas da editora Panini, do selo Vertigo da DC são orgulhosamente cruéis com seus personagens, dando-lhes o destino que alguns não merecem, afinal, eles estão na complexa e inexplicável realidade humana. Tendo que se manter vivos, e da forma mais decente possível, o amanhã é incerto para todos, e a série, vencedora de 25 prêmios Eisner, o Oscar dos quadrinhos, ainda parece ter muito fôlego no desenrolar de suas tramas paralelas. E como diz o Príncipe Encantado, a certa altura da história: “O governo dos mundanos cuida deles!”. Gostaria que ele viesse para o Brasil ver a situação do cidadão brasileiro, em 2019. Seria uma dose de realidade forte demais, para ele.

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