Resenha | Fugir: O Relato de um Refém

Ao longo das décadas, histórias reais sempre proporcionaram excelentes narrativas em quadrinhos. Maus, Persepolis e Pílulas Azuis estão aí que não me deixam mentir. Entrar na mente de outras pessoas e desbravarmos suas memórias para emularmos suas vivencias se configura, indubitavelmente, como uma experiencia catártica com a qual muitos de nós se identificam.

Do alto de nossas vidas muitas vezes ordinárias e banais, torna-se uma poderosa válvula de escape o contato com experiencias de vida muito distintas do que as nossas jamais serão. Quem conseguiu ler Maus e não pensar nas agruras pelas quais passou Vladek Spiegelman? Quantos conseguiram ler Persepolis e não se colocaram no lugar de Marjani Satrapi, em sua jornada de amadurecimento em meio ao mar de transformações pelos quais poderia passar uma jovem iraniana em sua vivencia (inter)nacional? Pois é, a realidade continua sendo um celeiro de boas e ricas histórias.

Em Fugir: O Relato de um Refém, o canadense Guy Delisle se coloca como um microfone para o relato de Christophe André, fazendo de seu traço um palco para o depoimento do francês, que trabalhava com os Médicos Sem Fronteiras na Cidade de Nazran, na Inguchétia, quando foi sequestrado por homens de uma milícia chechena, em 1997. Pego de surpresa e sem quaisquer explicações para o rapto, André passou cerca de 111 dias em cárcere privado, sob o controle e observação de insurgentes armados e perigosos, sempre algemado e parcamente alimentado.

Seu relato, trazido ao público por Delisle, obtém êxito em sua empreitada narrativa ao envolver o leitor naquela esfera de perigo e risco de vida iminente, colocando André no foco, cercado por paredes claustrofóbicas e rotineiramente visitado por silenciosos sequestradores, homens que, ao falarem uma língua à qual ele não compreende, o colocaram em completo isolamento, sem qualquer tipo de contato comunicacional que não o por meio de pequenos e contidos gestos. Esse processo de animalização de André por parte dos sequestradores é colocado em perspectiva pelo protagonista a todo momento, uma vez que este acaba por passar toda sua jornada tentando fazer a leitura da situação na qual se encontra, mesmo com poucas pistas.

Um grande mérito dessa história em quadrinhos reside na potência dos fluxos de pensamento de André, pincelados por Delisle à partir dos depoimentos colhidos pelo autor com o protagonista da narrativa. Silenciado, retirado do convívio em sociedade, André só possui a própria mente para contar e interagir, o que o faz se preocupar incessantemente com a contabilidade dos dias de cárcere e do calendário como um todo, bem como levam o homem, um aficionado por histórias de guerra, a listar personagens e batalhas históricas em suas divagações. André utilizou de todo e qualquer meio para evitar o descontrole mental que o aguardava, diante de tantas barreiras.

A arte de Guy Delisle tem clara influência da linha clara franco-belga, o que confere limpidez para as ambientações do artista, bem como contrastam com a seriedade do fato ali relatado. A estruturação narrativa do autor é eficaz em envolver o leitor no drama pelo qual André passa, construindo um retrato psicológico do protagonista, ao passo em que faz um uso até mesmo rítmico da rotina do cárcere ao qual o homem se encontra imposto. Suas incontáveis idas ao banheiro, os raros banhos, as refeições… todos os eventos que compunham o dia a dia de André em seu período sequestrado acabam por construir o envolvimento emocional do leitor com o protagonista, de modo que o encerramento da história se constrói em um ritmo alucinante, tenso e repleto de adrenalina, fazendo com que nos coloquemos na situação do protagonista, torcendo por sua fuga e subsequente busca pela liberdade.

A história de Fugir faz lembrar a HQ autobiográfica Uma Metamorfose Iraniana, de Maya Neyestani, cartunista iraniano que foi preso em seu país após uma charge sua tomar conotações políticas perigosas para o regime que vigora(va) no país. A diferença, contudo, se encontra nas palavras do próprio André e, “Fugir”, quando este afirma que ser refém é pior do que estar na prisão, pois na cadeia você tem data e hora para sair, enquanto no sequestro não se possui essa garantia. Isso, é claro, em um Estado Democrático de Direito, algo que passa longe do regime iraniano. A incerteza quanto ao próprio futuro é um traço marcante dos pensamentos de André expostos por Delisle, um artista vibrante e que extrai de seus econômicos traços uma infinidade de significações.

Grandes histórias são aquelas que nos fazem embarcar em suas tramas, e a HQ atende a qualquer requisito necessário para se instalar no hall das grandes histórias em quadrinhos baseadas em fatos reais. A busca de Christophe André por sua liberdade é daqueles relatos que revigoram os ânimos e aquecem os corações daqueles que se dispõem a lutar pela manutenção da paz e da garantia das liberdades individuais a todos os povos, indistintamente. Mais do que uma história pessoal, a obra é marcante também como um retrato histórico do mundo pós queda do muro de Berlim e fim da URSS, uma representação do caos étnico e social que restou em meio aos diferentes povos daquela região.

É uma tarefa árdua encerrar a leitura dessa história sem algumas lágrimas nos olhos, sem um reconhecimento à resiliência de um homem colocado em uma situação absurda, indefeso, mas que não se dobrou à barbárie, mas permaneceu digno em seu anseio por liberdade.

A história em quadrinhos Fugir: O Relato de um Refém foi publicada no Brasil pela Zarabatana Books em 2018, e conta com 432 páginas e capa cartão, em uma belíssima e impecável edição.

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