Resenha | Garras de Anjo

A dupla formada pelo finado Jean “Moebius” Giraud e pelo chileno Alejandro Jodorowsky marcou época na Bande Dessinée franco-belga com O Incal, trabalho que potencializou de diversas outras obras de curta duração. Em 1994, contudo, os dois talentosos autores desenvolveram o álbum erótico Garras de Anjo, que trafega entre os limites da história em quadrinhos e do livro ilustrado.

O traço do artista francês continua esplendoroso como de costume, mas a narrativa de Jodorowsky causa incômodo em grande medida, uma vez que o autor chileno se coloca no papel de um eu lírico feminino e se propõe a discorrer sobre as reminiscências da jovem Garra de Anjo, em um olhar pretensamente poético e erotizado sobre seu passado.

Cabe aqui uma pequena consideração: ao longo da literatura e da história dos quadrinhos como um todo, diversos homens obtiveram êxito ao emularem a voz feminina, captando detalhes do imaginário feminino com grande precisão. Tal tarefa, ainda que possível, torna-se cada vez menos estimulável, haja vista toda a justa luta por empoderamento feminino e pela ascensão da causa feminista na contemporaneidade. Mal posso imaginar como podem se sentir algumas mulheres ao se depararem com a representação de feminilidade escolhida para esse álbum.

Em que pese o olhar histórico (uma vez que estamos aqui falando de uma história concebida há cerca de 25 anos atrás), Jodorowsky pesa demais a mão nesse trabalho, e erra demais ao propor uma representação feminina sob uma ótica completamente distorcida e por vezes doentia. Completamente edipiana, Garras de Anjo enxerga em todas as figuras masculinas, reflexos de seu pai.

Passando por recordações perturbadoras, que evocam um aparente caso de abuso infantil, com reverberações na adolescência da jovem, o autor chileno concebe o monólogo interior da jovem protagonista, em uma espiral surrealista que demole as barreiras entre as camadas de realidade e imaginação, contando com o traço de Moebius para conceber metáforas visuais perturbadoras, misturando a sensualidade das personagens femininas com a bestialidade das figuras masculinas.

O artista francês desenha mulheres sensualíssimas, dando expressividade e lascívia para olhares, sorrisos e gestos, em cada painel que produziu para acompanhar os textos de seu parceiro chileno. A obsessão fálica que permeia a história é flagrante, com o traço de Moebius contrapondo representações ultrarrealistas para as figuras femininas, enquanto toda e qualquer representação de um pênis acabe descambando para o grotesco, para o exagero em tamanhos e formas. Não podemos atribuir tal característica obsessiva somente a Jodorowsky ou Moebius, o que nos leva a creditar tal necessidade perturbadora à dupla em igual medida.

Ao longo da trajetória da personagem, que busca tortuosamente alcançar a maturidade, nos deparamos com a glorificação do abuso, da violência sexual como medida de transcendência identitária, em um delírio freudiano que coloca toda e qualquer vontade feminina girando em torno do falo. Para alcançar sua elevação, Garras de Anjo precisa adquirir um falo para si, para conservar sua feminilidade com a autoridade inerente ao aspecto fálico. Por fim, a permissividade às bizarras maneiras de penetração acabam resultando em um incompreensível.. coração. Repugnante, definitivamente.

A obra, celebrada por muitos e demonizada por outros, foi publicada aqui no Brasil pela Editora Nemo em um luxuoso e belíssimo álbum de 76 páginas, em capa dura e envernizada, no mesmo formato da Coleção Moebius, da própria editora.

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