Resenha | Grandes Clássicos DC: Lanterna Verde e Arqueiro Verde – Volume 1

Grandes Clássicos D__C - Lanterna Verde e Arqueiro Verde - Vol.01

Uma das obras máximas da dupla Denny O’Neil e Neal Adams, lançado entre 1970 e 1971, bebe de fontes psicodélicas dos anos 1960. O imaginário que o roteirista pensou para seu ambiente sofre influências óbvias de Easy Rider-Sem Destino, Anjos Selvagens, do Movimento Beat e claro de road movies mil. O psicodelismo é mostrado no conflito que havia ao militarismo e esse caldeirão de emoções causadas na opinião pública tornara-se quase como uma tela branca, onde a cosmicidade da tropa de patrulheiros espaciais seria relegada a um segundo plano, coadjuvante diante da questão comum ao homem.  O que a dupla faria com o Arqueiro Verde e com o Lanterna Verde (Hal Jordan) entraria para os anais do panteão dos comics americanos, e seria largamente copiado, vide a sua contraparte da Marvel, com aventuras do Capitão América com o afro-americano Falcão.

Julius Schwartz chamaria O’Neil (com quem já havia trabalhado no Charlton Comics) para encabeçar uma reformulação do vigilante esmeralda, que sofria com as baixas vendas. O escritor estava em uma fase em que seu lado jornalista estava particularmente inspirado, e foi se baseando na realidade que via todos os dias, montando o planejamento para o número que escreveria. A ideia era pôr um super-herói para lidar com um problema real e dentro do contexto da vida real. O uso do Lanterna seria perfeito, pois no contexto da época ele era como um policial que patrulhava o espaço com uma arma de poder e infinito e munido de ideais semi-fascistas. A utilização do Arqueiro seria o contraponto perfeito, um herói que nunca conseguira se firmar como figura popular dentro da editora – até então – seria a voz invertida, o esquerdista sem muitas travas nas línguas que discutiria o papel do sobre-humano sobre o social. Tal personalidade para Oliver Queen ficaria tão marcada, que serviria ao personagem até a atualidade, excluindo obviamente a versão pós-reboot.

Iniciada em Green Lantern #76, o primeiro número da dupla já na primeira página romperia com o status quo do personagem, anunciando que a história seria pessimista, ao contrário das justiceiras histórias anteriores. A tradução que Mario Luiz C. Barroso fez para esta reedição da Panini é engraçada por usar um conjunto de gírias datadíssimas que ambientam de forma jocosa o leitor na época da publicação original. Lanterna defende um senhor que era agredido na rua por jovens, mas claramente ignorara o contexto e só o percebeu após receber uma reprimenda de seu conhecido vigilante. O Arqueiro é tachado como “defensor de anarquistas” pelo apolíneo justiceiro, o que por si só é engraçadíssimo. A discussão entre os dois tem bastante didatismo e até bastante óbvia se olhada atualmente, mas o debate precisava ser raso para ser mais facilmente absorvido pelo público mediano. Como era de se esperar, o Gladiador Esmeralda não demora a perceber seus erros de julgamento, mas sua ação civilizada e argumentativa não sensibiliza o personagem que ajuda a aumentar a disparidade social da cidade, quando ele está prestes a resolver o problema fisicamente, os Guardiões intervem, e quando o recurso Deus Ex Machina parece que será utilizado as circunstâncias viram, Hal, Oliver e um dos guardiões de Oa decidem viajar em um jipe pelas instalações estadunidenses, numa busca por suas próprias identidades humanas utilizando os problemas reais como modo de enxergar o que havia de errado com os homens. É curiosa a frieza que o Guardião que acompanha os terráqueos tem ao abordar a violência local, tratando como um simples evento cotidiano algo que poderia tirar sua vida. Jordan passa por uma crise existencial, onde questiona todo o seu conceito de justiça, revelando que começava a ver a situação geral de uma forma não tão maniqueísta quanto antes. O intervencionismo dele no entanto é paralisado pela medida restritiva de poder dos Guardiões ao seu anel energético, isso é um dos fatores que o motiva a recuperar a confiança em si mesmo, além é claro da causa que acabara de abraçar.

A trama envolvendo a Canário Negro e o líder de um grupo ideológico liderado por um xamã hipnotizador não é tão interessante quanto as primeiras histórias, mas vale a menção por mostrar de forma anedótica como funcionam muitos dos cultos religiosos ditos como inquestionáveis por seus fiéis adeptos. Os problemas que a dupla enfrenta tem uma carga tão supermoralista e politicamente correta que torna-se até enfadonha em certos pontos e maquiavélica, algo que O’Neil obviamente não queria e que anos mais tarde até admite como um tropeço em sua jornada, mas romper com anos de tradição é algo absolutamente complicado e é necessário fazer muitas concessões para trazer assuntos tão transgressores à tona, inclusive, pasteurizá-lo para que fique mais palatável. Talvez toda essa mistura tenha tirado a identidade do título e facilitado o cancelamento após 13 edições, mas certamente a culpa não era dos artistas, visto que as baixas vendas vinham de muito antes. Mesmo com tudo isso, a rebeldia prosseguia com uma abordagem firme e ainda muito presente, o nacionalismo ao invés de ser exacerbado tinha um viés contestatório baseado numa narrativa poética que permeava os lados ideológicos distintos que sempre se viam como os mais corretos, cada um a sua maneira, o curioso é a fina ironia que mostra que a solução do caso investigado se dá por outros meios, que não a reação de Lanterna e Arqueiro, mostrando que o belicismo pouquíssimas vezes consegue resolver os conflitos de forma plena.

O guardião que salvou Jordan sofre uma punição de seus iguais, perdendo o direito a imortalidade graças ao seu instinto passional adquirido ao ganhar feições humanas. A frieza dos mestres universais é o tempo todo questionada e discutida, inclusive pelas motivações de Hal, tanto que as mazelas que este é obrigado a enfrentar o fazem involuir e desejar regredir aos tempos onde era mais inocente – não à toa, visto que esse é o desejo de muitos os que se engajam em questões sociais e depois se decepcionam pela falta de resultados concretos.

O encadernado termina com uma história deveras escapista, que se vale da exacerbação do feminismo (usando as amazonas como avatar) para mostrar o erro de argumentos extremos e o quanto estes podem ludibriar quem os põe em prática de forma cega. A dramatização dos problemas apresentados não contém necessariamente as soluções fáceis ou sequer existentes. O que deveria ser apenas um golpe de humildade do roteirista evidenciando que não é onipotente acabou por tornar-se uma profecia de como seriam os tempos atuais, ainda sem respostas bonitas para questões de difícil digestão social. O trabalho de O’Neil é louvável como criador assim como a belíssima arte de Neal Adams, o que constitui da obra uma das peças mais importantes da editora no período pré-Crise nas Infinitas Terras, sua importância e contestação continuam atuais, especialmente se comparada aos quadrinhos descerebrados que são publicados a torto e a direito atualmente.