[Resenha] Hellblazer: Morte e Cigarros

hellblazer_capa_vortex-culturalÉ possível lutar contra o próprio destino e ludibriar a Morte? Talvez, se seu nome for John Constantine e se você tenha em seu currículo trapaças vencidas contra o próprio Diabo!

A mais longeva série do selo Vertigo chega ao fim em terras brasileiras com a publicação de Hellblazer: Morte e Cigarros, e a sensação de que isso já foi melhor é o que paira na cabeça do leitor ao terminar de ler a revista. O volume reúne as três últimas edições antes do cancelamento, além de um especial que abre o encadernado. John Constantine está velho – o tempo cronológico nesta série correu normalmente com os anos no mundo real – e sabe que seu fim está próximo. O que fazer? Claro, sendo o mesmo trambiqueiro de sempre, o mago faz de tudo para que seus dias não estejam contados para sempre, e cerca-se da ajuda de sua jovem esposa Epiphany para tentar se safar.

O arco final da jornada de Constantine leva apenas três histórias para se desenvolver, o que parece ser muito pouco. Muita coisa fica jogada no ar e até mesmo leitores que o acompanha há muito tempo podem ter certa dificuldade de entender todas as reviravoltas da trama. Claramente vemos um reflexo dos bastidores da própria Vertigo, com a saída da editora Karen Berger, substituída por Shelly Bond e derrocada do selo, além da volta do personagem para a linha principal da DC Comics, rejuvenescido e reformulado. Não teria sentido mantê-lo em duas linhas simultaneamente.

Morte e cigarros amarra algumas pontas soltas dos últimos anos. Vemos tudo que tem sido importante na vida de John nos últimos tempos: seus parentes próximos, amigos, esposa, inimigo, fantasmas, sexo, bebidas e cigarros. A edição tem um clima bastante pesado e depressivo, e com um final aberto, que leva a discussões se foi real ou um exercício de metalinguagem que o roteirista Peter Milligan quis entregar a seus leitores.

Infelizmente, para continuar essa análise, os parágrafos a seguir deverão conter spoilers. Caso queira evitá-los, pare por aqui e volte mais tarde, quando terminar de ler a edição!

John morre. De forma absurdamente equivocada, com um tiro no peito dado por um capanga pé-de-chinelo de seu sogro criminoso, Terry Greaves, que interpretou erroneamente uma fala do chefão. O destino dele foi selado tal qual as Moiras previram, mas Constantine já havia se preparado para isso. Claro que Epiphany não sabia, e sofreu seu luto por um tempo até acabar na cama com um demônio se passando por John e, mais tarde, com o sobrinho recém descoberto dele, Finn. O fantasma de Constantine vê tudo isso – e aprova, claro! – mas estava se preparando para voltar. Ele então aparece para o casal e revela seu plano a Piffy, que faz um cigarro com as cinzas do falecido. Ao fumar as cinzas, o fantasma se materializa como o velho Constantine de antes, e após cumprir sua parte num acordo com o Primeiro dos Caídos (o demônio em pessoa), resolve mudar-se com a esposa para uma casa no campo e começar uma nova vida, longe de todas as coisas ruins que o cercam.

Infelizmente, John percebe que isso seria impossível. Assim, ele vai até sua sobrinha Gemma e entrega a ela o último dardo amaldiçoado com magia negra que ela guardou após matar o Gêmeo Demoníaco de Constantine em O capote do Diabo. Gemma, que credita todos os sofrimentos de sua vida ao seu tio, atira o último dardo em direção a ele. Temos então um desfecho em aberto, no qual não somos informados do que aconteceu. São quatro páginas silenciosas e, no último quadro, vemos John Constantine em um bar, com um semblante estarrecido e muito mais velho do que antes, parado, como se num eterno sofrimento. Ao redor, todos os rótulos de garrafas nas prateleiras trazem os nomes dos autores e artistas que passaram pela revista nessas 300 edições.

Que John deveria morrer no último número não é algo tão absurdo para o leitor de longa data imaginar. Mas com o fim de Hellblazer temos também o fim de grandes personagens secundários que poderiam ter suas histórias contadas em outro título. O que aconteceu com Piffy, Gemma e Chas após a morte de Constantine (ou desaparecimento, já que ele foi transferido para o universo regular da DC)? Seria Finn um substituto à altura de seu tio? E Gemma, levaria uma vida normal ou andaria às voltas com a magia novamente?

Essas perguntas podem não ser respondidas, já que para tornar Constantine viável comercialmente, a DC resolveu reformulá-lo e rejuvenescê-lo na linha Os Novos 52, com a revista Constantine e sua participação na Liga da Justiça Dark. Os dois títulos foram cancelados, e posteriormente, na iniciativa DC&Você, tentaram voltar às origens do personagem com a série Constantine: Hellblazer. Mesmo assim, uma nova reformulação está por vir com Hellblazer: Rebirth. Parece que, ao mesmo tempo que a DC não quer deixar Constantine morto, a editora também não sabe o que fazer com ele vivo. Provavelmente, esses problemas editoriais devem ser parte de mais um trambique do mago para manter-se vivo. Que filho da puta!