Resenha | Hellboy Edição Histórica: Vol. 4 – A Mão Direita da Perdição

Com arte e roteiro executados por Mike Mignola, a quarta edição histórica de Hellboy, da editora Mythos, é dividida em arcos temporais bastante distintos, variando cronologicamente de eras em eras, cuja extensão compreende algumas histórias publicadas entre 1998 e 2000.

A primeira parte é chamada Anos Dourados e começa com o arco Panquecas. Lançada em 1999, é uma das histórias mais populares do personagens por abordar o demônio escarlate ainda infante. O fato do herói comer panquecas, com apenas dois anos de idade, selaria a porta de “retorno” ao inferno. A Natureza da Fera foi uma das primeiras histórias idealizadas por Mignola, em 1994, mas só foi publicada cinco anos depois. Ela é baseada numa lenda folclórica inglesa. Hellboy se traveste de caçador de dragões e se embrenha na mata atrás do réptil mitológico. O final é constituído por uma questão que reafirma uma dúvida atroz a respeito da afiliação do filho do demônio, e que, para o grupo de “contratantes”, fica a incerteza quanto a intenção do herói. Esta e a primeira história só foram publicadas em cores nesta edição compilada. Rei Vold mistura inúmeras referências ao folclore norueguês. A história contém alguns embates bastante violentos, sem deixar de lado o caráter de discussão e contestação de clichês dos quadrinhos, ratificando a função de desconstruir o ideal heroico que Mignola sempre usou em seu personagem mais ilustre e famoso.

A parte dois chama-se Anos de Maturidade e começa com o drama espiritual Cabeças, ambientado no Japão dos anos 1960, que mantém o clima típico do país mesmo com o pouco conhecimento do autor sobre a sua histografia. Os fantasmas que perseguem Hellboy tentam acabar com a própria agonia de uma forma pouco ortodoxa, variando entre o grotesco e o tragicômico. Adeus, Sr. Tod brinca com arquétipos de H. P. Lovecraft; a trama é bem curta, e quase não há protagonismo para Hellboy, lembrando muito mais um mini-conto lovecraftiano. Originalmente publicada em tiras e adaptada para o formato em hq, O Vârcolac faz uso de um mito romeno sobre um vampiro que se alimenta do sol e da lua. As cores de Dave Stewart, em especial o vermelho sangue, são muito vivas, o que realça os elementos da história. O aspecto de filme de terror remete aos primórdios do cinema de horror e inúmeros outros momentos, como as fitas dos anos 30, os filmes de monstros da Universal, o barroco da Hammer Films, e um bocado do registro visual do diretor italiano Dario Argento.

A parte três é denominada A Mão Direita da Perdição e começa com a história homônima, jogando uma luz sobre o motivo da mão do personagem ser enorme e feita de pedra. Já no início, há uma recordação de Sementes da Destruição, mostrando o antigo vilão Malcolm Frost no recordatório, e seu filho, um padre idoso, no tempo cotidiano. A origem da malignidade de Frost é discutida, sua motivação é dada pelo seu “santo herdeiro” como a de um homem de boa intenção, curioso quanto aos desígnios divinos. A mão rochosa do personagem é atribuída a uma maldição pessoal, um fardo que ele deve carregar para si. A história não é tão diferente quanto as anteriores, mas serve para trazer um frescor de perdão à trajetória do filho do demônio.

A Caixa do Mal é a derradeira história do encadernado, ainda explorando o mistério envolvendo a mão destra do herói. Originalmente publicada em duas partes, Mignola acrescentou quatro páginas finais em um epílogo. Todo o descompromisso com a cronologia e com o caráter jocoso presentes nas outras histórias é um pouco deixado de lado nesta edição. A aventura é apocalíptica e serve para o personagem discutir a sua origem — sempre renegada por ele mesmo  e seu papel no provável fim do mundo, bem como suas atividades enquanto agente do BPRD. Curioso como uma figura herdeira do inferno deve segurar um fardo tão grande, e que, por meio da cruz que carrega, se assemelhe a figuras distantes dos arquétipos de seus ancestrais, aproximando-o ainda mais à figura do Salvador. O que mais impressiona na criatura de Mike Mignola é essa variação de espírito e a quantidade de significados conflitantes em uma só persona, a qual representa, mesmo com tantas agruras, uma das figuras mais carismáticas e destacadas das que foram oriundas dos modorrentos anos 90.

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