Resenha | Hellboy Edição Histórica: Vol. 1 – Sementes da Destruição

Hellboy – Sementes da Destruição é uma daquelas histórias despretensiosas que sabe como fazer uma boa introdução de personagens e ainda deixar uma semente do que viria a se tornar um grande épico dos quadrinhos, seja pela mitologia utilizada na série, sua dinâmica, ou mais ainda, pelo seu protagonista carismático.

O personagem é uma criação de Mike Mignola e que desde sua estréia em 1993, tem alcançado enorme sucesso, rendendo prêmios Eisner ao autor, além de ganhar adaptações para outras mídias como o cinema, série animada, games e literatura, se tornando um ícone inconteste da cultura pop. Esse sucesso se repetiu no Brasil, com os lançamentos do herói em 1998, com a Mythos Editora. Anos depois, a editora publicou Hellboy Edição Histórica Volume 1, formato que resgata o primeiro arco de histórias do personagem em uma merecida edição de luxo.

A narrativa de Sementes da Destruição se dá início com um prelúdio ambientado no final da Segunda Grande Guerra, mais precisamente em 1944, onde conhecemos um grupo de nazistas de uma seção intitulada Projeto Ragna-rok, que visava a destruição do mundo em um aparente ritual diabólico. O plano não sai como o esperado e um jovem demônio acaba sendo invocado, no entanto, surge no meio de um esquadrão de soldados norte-americanos e parapsicólogos que investigam fatos estranhos durante a Segunda Guerra que têm relação com os nazistas. Esse demônio acaba acolhido pelo grupo e recebe o apelido de Hellboy.

Cinquenta anos depois, Hellboy é criado pelo professor Trevor Bruttenholm, um dos parapsicólogos que o encontraram, e se torna um demônio adulto que atua como detetive paranormal do Bureau de Pesquisa e Defesa Paranormal. As coisas saem do controle quando a figura paterna de Hellboy morre logo após uma misteriosa chuva de sapos e a aparição de uma criatura anfíbia. Hellboy e sua equipe decidem investigar e chegam até a sinistra e enigmática Mansão Cavendish, um local inóspito construído sob um lago que pouco a pouco vem afundando. Nesse local, Hellboy encontrará respostas sobre seu passado e sua verdadeira identidade.

A trama, apesar de simples, funciona muito bem. Seus clichês envolvendo grupos nazistas com planos de dominação mundial, ocultismo, detetives paranormais, câmaras criogênicas, entre outras inúmeras referências que parecem saídas de filmes B ou quadrinhos pulp de terror, traz um ar propositalmente trash muito bem vindo à narrativa. Outra referência que viria a se tornar uma assinatura no trabalho de Mignola com Hellboy são os elementos de literatura de terror de autores como H.P. Lovecraft, Edgar Allan Poe e William Hope Hodgson, além de outros tantos.

A arte de Mignola é o que mais chama a atenção neste primeiro trabalho com o personagem. Todas essas influências pulp são claras em seu trabalho, da mesma forma que o cinema expressionista alemão, seja pela forma como trabalha o contraste entre a escuridão e a luz, seus personagens bizarros, mas também pelo seu traço sujo, gótico, e até mesmo caricato, mas ao mesmo tempo extremamente clássico. Se isso não bastasse, Mignola sabe como poucos criar dinamismo e tensão em seus quadros. Algo que seria cada vez mais lapidado em sua narrativa.

O roteiro de John Byrne não funciona da mesma forma. Byrne parece pouco à vontade com o trabalho que tinha em mãos e não desenvolve o “argumento” escrito por Mignola, tendo em alguns momentos diálogos truncados e que não soma ao trabalho do desenhista, contudo, nada que diminui a importância da obra.

A Edição Histórica da Mythos traz ainda uma série de esboços, galeria de releituras do personagem por outros artistas, além das duas primeiras aventuras do Hellboy que foram produzidas, ambas com o propósito de apresentar o personagem ao público. Imperdível.

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