Resenha | Hitomi

Hitomi é a típica obra de arte que, através de seus gráficos e toda a poesia que exclama de sua simplicidade, celebra o lado simples das coisas em uma rápida leitura, para todas as idades, e tipos de público. A trama, a mais sugestiva possível: sozinha em sua casa, morando com sua mãe que parece não fazer parte do seu mundo infantil e cheio de imaginação, e ambas abandonadas pela figura paterna que só faz trabalhar, a garota título precisa de um escapismo. Um abrigo contra o tédio.

Da casa para a escola, e vice-versa, todo dia, eis um ciclo monótono quebrado por uma briga dos seus pais no telefone – algo realmente marcante para uma criança. Para fugir de um conflito pesado demais para ela, a garota corre para o sótão, onde encontra uma máquina fotográfica capaz de congelar o tempo. Era uma vez o gatilho para uma aventura, e sua pequena vila japonesa ganha outros contornos para nossa heroína mirim, uma nova intensidade, além de oportunidades inéditas de usar sua curiosidade natural para novos fins – muitos mais interessantes.

Sobre Ricardo Hirsch e George Schall, a formação em cinema e histórias em quadrinhos dos autores de Hitomi não nega as verdadeiras inspirações sensíveis e transgressoras da trama. O nobre e utópico desejo de um artista de usar a arte para fins práticos, e o de parar a realidade nem que seja por uns segundos, sequer, e observá-la, senti-la, alheia aos efeitos do tempo, é metaforicamente implícita no papel da descoberta da garota. Ela chega a salvar uma vida com sua fantástica ferramenta, mas também aprende que nem ela brincando de Cronos, o deus grego do tempo, pode controlar o curso natural da vida.

A universalidade desta publicação da Balão Editorial é total, apostando em poucos diálogos para expressar suas necessidades e mensagens mais sinceras cujo visual da obra, por si só, já dá conta do recado na maior parte da leitura – e bem, por sinal. Hitomi não alça grandes voos, tendo poucas ambições além de ser uma pequena grande ode à candura, ao poder transformador da arte, e a descomplicação de um mundo cada vez mais complicado. Afinal, se você pudesse parar as horas, qual situação iria congelar sob a tentação de nunca mais vê-la acontecer, de novo?

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