Resenha | Homem-Borracha

Em um mundo em que a Marvel se tornou referência para heróis coloridos e escapistas, enquanto a DC virou sinônimo de trevas e seriedade, é reconfortante encontrar algum material da casa do Superman que se permite ser leve e divertido. Assim como nos gibis da Arlequina, Homem-Borracha tem um tom muito mais caótico e descontraído do que qualquer outro título da casa, lembrando em muito a antiga série mensal do Lobo por prezar pelo humor e pela sátira ao Universo DC como um todo.

Escrito pela sempre excelente roteirista Gail Simone e lindamente ilustrado pela brasileira Adriana Melo, a minissérie em seis edições foi publicada no Brasil pela Panini em um encadernado de volume único e capa cartão de 140 páginas. A trama nos apresenta a reinvenção da origem de Eel O’Brian, atualizada para a nova cronologia pós Ponto de Ignição. O’Brian é um bandido que vê sua vida virar de cabeça pra baixo após ser baleado, coberto de produtos químicos e descartado por seus parceiros gângteres. Ganhando estranhos poderes plásticos de se esticar e transformar em qualquer coisa que imaginar, assume a identidade de Homem-Borracha e passa a fazer o bem para tentar se redimir de seu passado criminoso.

Na história, o Homem-Borracha se depara com uma organização criminosa conhecida como A Cabala, ao mesmo tempo que se vê como tutor de uma criança de rua gender fluid, além de conciliar tudo isso com seu trabalho numa boate com a temática de super-heróis, onde strippers fazem  lap dance fantasiados de Batman, Mulher-Gato ou Supergirl. Paralela à trama central, vemos o surgimento de uma nova vilã – que infelizmente não surgiu em ação até o fim da minissérie, plantando a semente para ser desenvolvida em futuras aparições do herói.

A arte de Adriana Melo consegue dialogar muito bem com o roteiro, além de mostrar acertadamente a influência de alguns elementos de mangá. Ela consegue demonstrar força, ação e fofura nos momentos adequados, e seria ótimo vê-la novamente em uma possível série mensal do Homem-Borracha. Claro, como nem tudo é perfeito, em uma cena em que Eel se transforma na Arlequina (assim como ele incorpora diversos outros personagens DC), houve um certo desentendimento com alguns membros  da comunidade trans, que viram na representação (tanto visual quanto textual) algo ofensivo. É interessante notar que Gail Simone prontamente se manifestou em sua conta pessoal no Twitter, procurando entender os motivos do desagrado e se desculpando, de uma forma digna e que dá uma lição em muitos produtores de conteúdos que, em situação semelhante, saem atacando o suposto “politicamente correto” ao invés de tentar entender onde errou e melhorar como ser humano.

Homem-Borracha é uma ótima edição, e embora tenha alguns problemas de interação com alguns núcleos de personagens no roteiro, mostra a força que um personagem da década de 1940 pode ainda ter nos dias de hoje quando bem trabalhado.

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