Resenha | John Constantine, Hellblazer: Assombrado Vol. 1 – A Mulher Escarlate

John Constantine teve algo muito próximo do que podemos chamar de uma “vida feliz” durante a passagem do roteirista Paul Jenkins nos sete volumes de Hellblazer publicados pela Panini durante a fase Demoníaco. Infelizmente para o mago, o leitor não é apresentado a histórias tão interessantes quando sua vida é cercada por amigos e uma namorada companheira. Assim, logo no fim de sua fase, Jenkins trata de dar um fim a essa vidinha feliz e John, como sempre, põe tudo a perder, abrindo caminho para Warren Ellis assumir o título em seguida com a curta fase batizada de Assombrado.

Ellis faz um excelente trabalho nesse volume ao pegar um ponto de partida para o personagem que não deixa para o leitor novato a necessidade de ter lido a série anteriormente. O primeiro arco de seis histórias conta como a vida de John Constantine é jogada na sarjeta quando ele investiga o brutal assassinato de sua ex-namorada Isabel Bracknell. Ao se aprofundar no submundo do crime londrino, John recebe uma surra de “aviso” dos comparsas do assassino — que também é um mestres das artes ocultas — e passa boa parte do volume se recuperando e planejando sua vingança. Isso porque o fantasma de Isabel continua se manifestando em Londres, o que significa que sua alma está atormentada e ainda não conseguiu concluir a passagem para o além.

O texto de Ellis é maduro e bastante sóbrio, o que faz com que certas passagens de extrema violência se destaque — principalmente sob o lápis de John Higgins, que consegue retratar um Constantine quarentão de forma bastante acertada. Aliás, é interessante como a passagem do tempo é retratada pelo roteirista, que faz questão de mostrar que o personagem segue envelhecendo normalmente e não está congelado no tempo como outros personagens da DC Comics, que nunca saem da faixa dos trinta. A ambientação também faz claras referências ao final da década de 1990 (em que a história foi publicada), com Friends passando na televisão ou jornais anunciando homenagens póstumas à Lady Di. Além disso, temos um excelente trabalho de pesquisa sobre ocultismo realizado pelo autor, que faz seu vilão ser um seguidor de Aleister Crowley. O assassinato de Isabel teria fortes ligações com a obra de Crowley e faz com que o vilão seja muito verossímil, assim como a magia nesse arco está longe de ser feitiços lançados com pirotecnia, como na versão de Constantine dos Novos 52.

Essa ligação de Ellis com acontecimentos atuais, na época, acabou resultando no cancelamento prematuro de sua passagem pelo título. Devido ao massacre de Columbine em 1999, uma de suas histórias acabou sendo censurada pela DC/Vertigo, e o roteirista interrompeu seu trabalho na editora. Por esse motivo, a fase Assombrado tem apenas dois volumes (diferente dos sete ou oito das fases de outros autores). Uma pena, pois A Mulher Escarlate é uma das melhores histórias de Constantine já publicadas.

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