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Resenha | Juiz Dredd: Assassinos Seriais

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Mega-City Um é, provavelmente, o único lugar que pode rivalizar com Gotham City para o título de pior megalópole para se morar. Um ninho irreversível de crimes e imoralidade chocante aonde habitam os piores tipos da humanidade, atraídos pela podridão urbana que torna a cidade a personagem principal da histórias do “herói” Juiz Dredd. É lá, nessa Gotham ainda mais decadente e perturbadora que aquela que temos nas páginas e filmes clássicos da DC, em que assassinos se sentem livres para atuar feito crianças na Disney, num ciclo de horrores que se auto alimenta ao atrair a escória da Terra para os domínios da cidade, em um futuro distópico e pervertido, em meados dos anos 2090. Já que tudo virou profano, é preciso haver na prática o peso da justiça no mundano reino dos homens, e somente um deles (e seu icônico capacete) consegue alcançá-la num inferno sem leis, quiçá a salvação nunca antes prometida.

Simbolizando o fim da impunidade a qualquer custo, em um oceano de criminosos insanos (Batman iria sentir falta do Coringa, aqui), o Juiz Dredd é figura boa demais para ainda não ter ganho, em pleno 2020, uma legítima série da Netflix. Dredd faz parte da polícia especial de Mega-City Um, sendo o mais implacável entre todos os outros agentes. Além de ser um “Cavaleiro das Trevas que mata”, o Juiz não só cumpre sua missão de encontrar e exterminar os valgas (como são chamados os fora-da-lei), como de mandar os piores entre os piores para a ‘Barca’, uma prisão de segurança máxima de onde nem o Houdini conseguiria escapar. Nas ruas, Dredd é polícia, juiz, júri e executor, e a coletânea Assassinos Seriais traz episódios tenebrosos de violência policial que provam as causas dessa ética de trabalho precisar ser seguida à risca.

Em dez estórias de tirar o fôlego, enquanto expõe o mal que existe nos prédios e becos de Megona, somos apresentados em Psicopata Global a um Facebook de serial-killers, onde todos compartilham seus absurdos, e a unidade técnica da polícia não consegue rastrear a origem do site. Logo em seguida, nos é revelado que o espaço online serve para recrutar os melhores assassinos para lutarem entre si, formando uma elite mortal a trabalho da vilã Amanda, antiga rainha do submundo que se mantém viva através de tratamentos químicos bizarros. Na fantástica Elite Assassina, escrita por Gordon Rennie e toda estilizada em preto e branco para que as explosões brilhem, e o sangue negro jorre numa verdadeira carnificina planejada, chega a hora da competição tomar corpo. Todos agem contra o tempo, e só um pode sair vivo dessa orgia de morte – e é difícil acreditar que haverá um novo dia para Dredd fazer seus julgamentos, depois disso. Ação e terror na medida certa, belissimamente bem ilustrada por Paul Marshall. Bravo.

Mas talvez seja no conto O Connoisseur que Assassinos Seriais, publicada com absoluta excelência gráfica no Brasil pela Mythos Editora, atinja então o seu ponto mais alto. Após algumas boas e regulares histórias, com vilões de todo tipo atormentando o Juiz e seus bons companheiros de trabalho (a maioria fica pelo caminho, ora por não terem sua experiência, ora por puro azar), conhecemos o Fome. Um psicopata obscuro que, por não sentir nada, mata as pessoas para absorver suas sensações na hora da morte. O mais interessante entre todos os antagonistas, o Fome cruza o caminho do Juiz sem querer, em um simples elevador, e é o único valga de Mega-City que aparenta ter consciência das implicações morais sobre o mal que pratica, ainda que por instinto. Ele precisa sentir a felicidade, o medo, o amor que a ele é transmitido apenas quando essas sensações são retiradas do corpo das pessoas – mas não porque essa transmissão voraz traz consigo algo de real e humano, numa cidade desumana, e sim porque ele existe para isso. Esse é o seu trabalho de destruição no mundo.

Felizmente, o de Dredd é aplicar a Lei de Talião para quem faz da sua cidade um labiríntico filme de terror, e todas as histórias aqui escolhidas retratam com exatidão a urgência de retaliação que existe nesta realidade desoladora, e que parece viver nas trevas o tempo inteiro. Seu anti-herói é literalmente o que ela precisa: um homem, quase uma entidade, mais preocupado em punir seus algozes que proteger os cidadãos comuns. O Juiz Dredd pode ser visto como um arauto imediato da vingança do bem para com as forças malignas que corromperam sua ordem, e dela retiraram a sua luz, a sua estabilidade. Todavia, a criação de John Wagner e Carlos Ezquerra não é nada maniqueísta, capaz dos atos mais altruístas e cruéis com quem merece, e dialoga com o caos do mundo real, com a justiça dos homens que quase sempre falha em inúmeros casos de grande impacto social. Deixa espaço, ainda, para refletir sobre o papel de monitoramento que a tecnologia cada vez mais tem nas sociedades, uma quebra de privacidade que pode ser usada para as melhores, e piores intenções das instituições públicas, ou privadas. Assassinos Seriais é obra-chave para qualquer colecionador de HQ’s ter em sua estante, só pelo prazer de revisitá-la, de vez em quando.

Compre: Juiz Dredd – Assassinos Seriais.

Douglas Olive

Cinéfilo formado em publicidade e iniciante com "Os Aristogatas", que assistia 5 vezes por dia na infância, e que agora começa a querer fazer seus próprios filmes. Devo estar indo longe demais.
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