Resenha | Justiceiro – Nascido para Matar

Justiceiro - Nascido Para Matar- Garth Ennis

Desde que o irlandês maluco (leia-se Garth Ennis) assumiu o título do Justiceiro, o personagem foi ganhando espaço cada vez maior e fãs mundo a fora. Ao perceber um grande potencial nas histórias do personagem, a Marvel decidiu mudar a casa do Justiceiro para um selo adulto, onde teria toda sua história recontada por Ennis, tendo total liberdade para fazer o que quisesse com o personagem, sem ter de se importar com o “fantasioso” universo Marvel cheio de “maravilhas” que Frank Castle tanto odeia.

É claro que a Marvel também se preocupou com a ridicularização de seus personagens, já que a cada edição Ennis sacaneava um deles (o ponto forte foi o que ele aprontou com Wolverine e Homem-Aranha) e certos fanboys se incomodavam com esse tipo de atitude com seus queridos personagens. Para isso, ficou decidido criar histórias do Justiceiro que não tivessem ligação com o universo habitual dos heróis Marvel, e passamos a ter dois justiceiros, aquele que vive no universo Marvel habitua e o Justiceiro do Ennis que seria publicado na série Max, selo adulto da Marvel.

Nascido para Matar, ou Born (título original), foi publicada neste selo Max e conta um pouco sobre a campanha de Castle na Guerra do Vietnã, trazendo um ângulo muito pouco explorado, já que pouco se falou de sua fase da vida em que passou no Vietnã, o pouco que se sabia é que ele tinha sido um herói condecorado e não muito mais que isso. Com base nessa origem, Ennis traça um perfil psicológico do personagem nunca antes abordado.

Ennis desconstrói o personagem e coloca de lado a tão batida origem do Justiceiro de lado, já que com a morte de sua família, ele teria enlouquecido e se tornado o Justiceiro. Aqui Ennis traz algo novo na história do personagem, seria mesmo a morte de sua família o gatilho que o levou a se tornar quem era, ou sua faceta psicótica sempre existiu, e estavam apenas esperando o momento certo para vir à tona?

A história da HQ se passa já no final da guerra, os EUA estavam sofrendo uma grande pressão popular para trazer seus jovens de volta. Nixon passa a reduzir as tropas americanas a numeros cada vez menores e os vietnamitas do sul passam a reassumir suas responsabilidades militares no confronto. É Nesse cenário que conhecemos o Capitão Frank Castle.

Temos duas principais narrativas, a primeira do soldado Godwin, que demonstra um grande respeito por Castle, mas ao mesmo tempo medo pela paixão que ele passou a ter com a guerra e toda àquela situação, mas acima de tudo, confia nele, pois acredita que apenas Castle tiraria todos daquele inferno. Em contrapartida, temos o ponto de vista de Castle, com todos os seus tormentos e suas dúvidas, e quadro-a-quadro vamos presenciando um personagem se moldando.

O roteiro de Ennis é visceral, detalhando seus personagens, a relação de medo e respeito entre Godwin para Castle, os conceitos deturpados de justiça aplicados pela mente doentia de seu protagonista, além de todo um esmero em escrever um retrato de uma época. Além disso, Ennis não faz vista grossa para todas as atrocidades que o exército americano cometia, monstrando estupros, a dependência de drogas pelos soldados e os assassinatos a sangue frio que eram cometidos. Claro que nada disso seria a mesma coisa sem o competente desenhista Darick Robertson, que com traços minimalistas cria sequências fantásticas de ação, onde a morte está presente em cada quadro, mas ainda assim, consegue colocar um ar poético em meio a tanto sangue.

Nascido para Matar traz uma premissa interessante sobre a psique do Justiceiro, deixando claro que ele era um psicopata há muito tempo e a morte de sua família serviu apenas como gatilho para esse lado se tornar quem ele é. Outro ponto interessante são alguns diálogos entre Castle e um ser que não se identifica, mas que faz um pacto com ele. Afinal, seria ele o alter-ego de Castle já se manifestando? Uma força sobrenatural com quem Castle joga dados ou apenas reflexos de sua mente doentia?