Resenha | Lendas Disney n°01 – Superpato Original

Em janeiro de 2018, a Editora Abril lançou o que seria uma nova série dedicada aos maiores personagens dos quadrinhos Disney. Com capa cartonada e formato diferenciado, a série não chegou sequer ao seu segundo número – que seria dedicado aos 70 anos do Ganso Gastão – graças à crise editorial e perda dos direitos de publicação dos quadrinhos Disney no Brasil. Contudo, o primeiro e único volume da série mostra que a premissa seria bem interessante se não fosse interrompida por questões contratuais da empresa. Lendas Disney n°01 – Superpato Original apresentou as três primeiras histórias do personagem, sem cortes e sem censura, reunidas em uma só edição.

Antes de falar sobre as histórias em si, cabe aqui uma contextualização histórica. As histórias em quadrinhos Disney são produzidas em diversos países, como Itália, Dinamarca, Holanda e Brasil (embora hoje não exista mais produção nacional, esta foi muito forte nos anos 1980), e o Superpato é uma criação da Disney italiana, fruto de uma ideia da editora Elisa Penna e do roteiro de Guido Martina, com desenhos de Giovan Battista Carpi em 1969. Em terras brasileiras, a publicação do personagem se deu pela primeira vez em 1973, porém sofreu diversos cortes e alterações, tanto na arte quanto nos roteiros, tendo páginas suprimidas e final totalmente refeito no Brasil. Isso se deu por conta da forte censura da ditadura militar, na época sob o comando do general Emílio Garrastazu Médici. Nas histórias publicadas na íntegra nessa edição, vemos um Donald bastante diferente do que conhecemos, com caráter mais do que duvidoso, infringindo a lei e agredindo policiais – coisa que jamais passaria pelos censores dos anos de chumbo no Brasil. Quem leu essas histórias na época, no saudoso Almanaque Disney, pode entender nesse volume o motivo de tantas incongruências entre elas. Aqui, vemos em ordem cronológica e com um certo respeito à linha narrativa, tendo um background bem estabelecido para o alter ego do Pato Donald.

A primeira história se chama Superpato, o diabólico vingador. Nela vemos a origem do herói – opa! Herói não! Em seus primórdios, Superpato nada mais era do que um fora-da-lei, uma persona criada por Donald para se vingar dos desmandos de seu tio muquirana (que nas histórias italianas é ainda mais sovina e até mesmo cruel do que o Tio Patinhas retratado por Barks e Rosa). Cansado de ser humilhado, Donald se apropria indevidamente de uma vila nas colinas com um casarão abandonado (que deveria ter sido doada a seu primo Gastão). Ali ele conhece a história de Fantomius, um fora-da-lei do passado e usa sua vestimenta e apetrechos para se vingar do seu tio pão-duro, roubando-lhe o colchão recheado de dinheiro enquanto o velho pato dormia. O interessante nessa história de origem é ver o quanto Martina retrata Donald como mau-caráter e aproveitador, incriminando pessoas inocentes apenas para atingir seus objetivos mesquinhos, muito diferente do personagem que conhecemos.

Em A fabulosa noite do Superpato, também de Martina mas com desenhos de Romano Scarpa e arte-final de Giorgio Cavazzano, vemos o desenrolar dos eventos ocorridos na história anterior. É interessante notar uma certa preocupação com fatos estabelecidos anteriormente, principalmente o destino da Vila Rosa no desfecho da história anterior. Donald continua obcecado por vingança, e está disposto até mesmo a roubar todo o dinheiro arrecadado em um baile filantrópico para atingir seus objetivos. Merece destaque a participação do Professor Pardal, que não só prepara um arsenal e um bunker para o vingador mascarado como também cria um álibi perfeito para si próprio ao desenvolver o caramelo cancelador de memórias.

O museu de cera é a terceira e última história da edição, produzida pelo mesmo trio da anterior, e continuamos vendo o Superpato como um bandido, porém seu desfecho é um pouquinho mais altruísta do que nas outras duas. Chega a ser irritante ver a hipocrisia de Donald quando ele se indispõe com quem desconfia de que ele seja o Superpato, chegando até mesmo a agredir seus sobrinhos fisicamente por simplesmente estarem certos. Dessa vez, inconformado por ver seu tio se apropriar de uma ideia sua, o herói rouba o museu de cera do milionário. Sem dúvida alguma Donald é um criminoso nessas HQs, mas ao menos em seu desfecho o roteiro começa a sinalizar uma mudança no status quo do personagem, que de tanto sucesso passou a ser realmente um super-heróis nas histórias vindouras.

Superpato Original nos apresenta um personagem totalmente diferente daquele que conhecemos. Inicialmente uma paródia de um personagem famoso na Itália (Diabolik, de onde vem o nome original italiano Paperinik), ganhou público e crítica, mudou seu conceito, teve reboot e séries mensais dignas de heróis da Marvel ou DC e conquistou gerações. Uma pena que Lendas Disney tenha sido interrompida tão precocemente em sua primeira edição.

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