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Resenha | A Liga Extraordinária - Volume Um

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A obra de Alan Moore e Kevin O'Neill, publicada em 1999, começa com uma citação de Campion Bond, em Memórias de um Agente Secreto Inglês de 1908, que é a síntese de todo o esquete:

"O império britânico sempre teve dificuldades para distinguir seus heróis de seus monstros”.

Mina Murray é apresentada conversando com Campion Bond, a respeito de uma estranhíssima reunião, arquitetado pelo Senhor M., chefe do MI6. Moore deixa claro nas primeiras páginas que seu objetivo está longe de ser uma retratação chapa branca dos famosos personagens literários, ao contrário, a mesma corruptela que teria feito com os heróis mascarados em Watchmen, faria com esses ilustres senhores, mostrando as criações em domínio público de uma forma visceral, extremamente amoral e imperfeita. Os aforismos e liberdades tomadas por ele, acompanhado é claro da arte anárquica de Kevin O’Neill, tornam os empoeirados personagens em espécimes dignos e quase provindos do século XXI que se aproximava.

Os desígnios da senhorita Murray parecem ser os de selecionar pessoas “extraordinárias” para constituir uma força-tarefa, ainda que de desajustados, com um viciado: Quatermain; um pirata: Nemo; um transmorfo homicida: Dr Jekill; um estuprador incógnito: Homem Invisível... Além é claro da participação diminuta mas não menos importante de Auguste Dupin.

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Em uma frase, Quatermain resume o que para ele era o estado letárgico da aposentadoria: "É difícil parar, se você para tudo desmorona!”

O grupo reunido tem capacidades além do alcance humano, ainda que suas mentes ou caráter não estejam nos melhores dias, A Liga é como uma reunião dos seres mais poderosos do Império Britânico, mas inseridos em uma fase descendente. A todo momento o autor relembra a decadência, deixando claro para o leitor que os tempos de glória do passado ficaram nos romances de Verne, Wells, Stevenson, Haggard e Stoker. A perspectiva de estarem do lado errado da Guerra que traria o Juízo Final deixa o grupo pasmo, especialmente Wilhelmina, que possui o código ético mais aproximado do ideal heroístico, mas cada um, à sua maneira, se mostra receoso.

A imaginação do autor corre de forma desenfreada, as viradas de roteiro são frenéticas, mas perfeitamente cabíveis, num fino equilíbrio entre uma aventura escapista, mas sem deixar de lado o aprofundamento em personagens tão ricos como estes. Moore tem uma preocupação interessante com as personalidades canônicas, fazendo até referência ao tamanho diminuto de Mister Hyde na novela de Stevenson, coisa que a maioria dos filmes do Médico e o Monstro simplesmente ignora.

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O desfecho é de um sensacionalismo folhetinesco dos mais bem construídos: sangrento e repleto de cenas de plasticidade exacerbada, abrilhantada pela arte anárquica de O’Neill, que na dupla com Alan Moore consegue capturar as nuances de cada um dos personagens de forma ímpar e os repagina para a nova era do entretenimento, em uma narrativa simples, porém muito bem urdida.

Filipe Pereira

Filipe Augusto Pereira é Jornalista, Escritor, quer salvar o mundo, desde que não demore muito e é apaixonado por Cinema, Literatura, Mulheres Rock and Roll e Psicanalise, não necessariamente nessa ordem.
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