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Resenha | Mayara & Annabelle – Vol. 1

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“Mas que diabeisso?!”

Antes de mais nada, é sempre motivo de orgulho perceber como a fantasia, em cenários orgulhosamente brasileiros, pode ser tão delirante quanto a melhor das aventuras do Homem-Aranha nos arranha-céus de uma Nova York tão lugar-comum. Já com esse Vol. 1 de Mayara & Annabelle, publicado pela editora Fictícia, a história é diferente: eis uma série que também visa explorar de forma surreal a relação intrínseca de duas jovens aventureiras com uma cidade para combater forças sobrenaturais, mas o palco agora é Fortaleza (bem longe do eixo Rio-São Paulo). Aqui, demônios e monstros gigantes aparecem sob um calor de mais de 40º Celsius para enfrentar, da forma mais dinâmica e divertida possível, a mortal espada katana da esquentada Mayara, e a magia cor-de-laranja da descolada Annabelle que, até então, nunca precisou de ajuda para fazer seu serviço secreto no Ceará.

Secreto, aliás, já que o mal em suas mais variadas formas e manifestações alegóricas nunca descansa – viva as utopias! Por isso mesmo, foi criada para cada estado do Brasil uma Secretaria de Controle de Atividades Fora do Comum, ou melhor, uma SECAFC, com seus agentes prontos a interferir caso um caranguejo gigante ou um político diabólico decida se revelar, e destruir tudo por ai – sorte nossa que isso é apenas ficção. Em São Paulo, tudo corria bem para Mayara, mas após fazer algo que estava bastante acostumada (criar problemas), o secretário da SECAFC – SP decide enviá-la junto de sua espada para Fortaleza – ou então, exonerá-la. Mas como recomeçar a vida do zero junto de Annabelle, que não gosta de ser interrompida em nada. Em seu serviço, em sua soneca, e muito menos na série que baixa para assistir no computador, e driblar o ócio do escritório.

Temos aqui duas mulheres por quem é fácil se apaixonar (inclusive elas, por elas mesmas), cuja autoafirmação é renovada a cada combate vencido, a cada dúvida solucionada; afinal as trevas estão sempre à espreita, e as vezes na esquina, literalmente. O que acaba sendo bom, pois uma vida de luta contra a mais sinistra das paranormalidades pode ser muito chata, uma vez que não é todo dia que uma entidade é conjurada, agindo na mais banal das tardes de Fortaleza contra a paz pública e o prazer delas em tomar uma no bar, ou apenas se tostar gostoso na praia. Ao passo em que uma deve (e acaba gostando de) se acostumar com o jeito e as diferenças da outra, uma amizade toma corpo em prol de uma resistência mútua aos perigos e artimanhas que cercam as duas, e o uso simbólico do caranguejo frito, na cena do restaurante, é particularmente engenhoso na história, já que demonstra bem o que elas fazem com seus vilões, nesse delicioso debute de uma série de grande potencial.

Tudo desenhado por Talles Rodrigues, criador da mais divertida dupla de agentes públicos do Brasil. Rodrigues é morador de Fortaleza, e a homenageia com uma ação e uma irreverência que se apropria de toda a ambientação da cidade, e seus costumes, num toque de originalidade e regionalismo que junto ao carisma das protagonistas e seus dramas, seduz a qualquer um. O resultado disso é esta co-criação inconfundível, forjada no frenesi e na expressividade dos traços de Rodrigues que nos conduzem graciosamente no ótimo desenvolvimento narrativo de Pablo Casado, cativando-nos desde a primeira página (como deve ser, em tese) para mais aventuras que com certeza, para Mayara & Annabelle, não faltarão a serviço da SECAFC do Ceará – isso se elas não forem exoneradas em outra de suas confusões, é claro.

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Douglas Olive

Cinéfilo formado em publicidade e iniciante com "Os Aristogatas", que assistia 5 vezes por dia na infância, e que agora começa a querer fazer seus próprios filmes. Devo estar indo longe demais.
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