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Resenha | Miracleman - nº 1

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Corrigindo um atraso no mercado editorial brasileiro – no início da edição, um relato feito pelo editor Fernando Lopes tem função de mea culpa –, finalmente é lançada a aventura de Alan Moore à frente do plágio voador Miracleman, de modo econômico, viável, bem distante dos patamares desejados por colecionadores. Um jeito interessante e bastante sábio de introduzir um personagem tão pouco conhecido no Brasil.

A era nuclear, que inspirou Mick Anglo, e o arcaico conceito conservador de exibir uma família em ação em meio a um mundo heroico, seriam os ingredientes para tornar o alterego de Michal “Micky” Moran em uma boa figura de análise, a base perfeita para a piração que Alan Moore pensava, discutindo o mito do super-humano e elevando o conceito a patamares superlativos dos deuses e semideuses gregos. Chega a ser curioso que todo o arcabouço ideológico que o escritor produz seja baseado em uma figura que, a priori, é um plágio, criado somente para suprir a brecha legal que o Capitão Marvel deixou na Fawcett.

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O prólogo exibe uma das escapistas histórias de Anglo, mostrando o jovem Johnny Bates tão inocente quanto o cunho moral da história, em que a simples menção a uma palavra, que remetia à nomenclatura do herói, era capaz de resolver qualquer situação inconveniente. A esdrúxula fórmula atômica pensada por Guntag Borghelm é capaz de transformar humanos simplórios em seres perfeitos, tanto fisicamente quanto espiritualmente, valorizando o conceito nietzscheano do Super-Homem, o qual inspiraria o bruxo, citando Zaratrusta ao fim da introdução. Ironicamente, o desfecho da história envolve o “abandono” do mentor, e figura valente, de seu pupilo, no caso Kid Miracleman, fato repaginado no primeiro plot.

O serviço de contínuo, o mesmo que travava nos anos cinquenta, mostra a involução do personagem, que deixou há muito os tempos gloriosos, lembranças que atormentam a mente do sujeito de meia-idade na forma de pesadelos. Em 1982, a decadência física de Moran baila junto à paranoia atômica, ambos aspectos frutos da condição temerária da Guerra Fria, situações que tornavam os meros humanos reféns da inexorável condição de mortalidade anunciada.

Levantando-se da apatia e depressão de sua contraparte, ressurge Miracleman, um homem sem limites, triunfante em postura, carne e ações. Até a figura matrimonial de Michael, Liz Sullivan Morgan, teria que sofrer mudanças. A postura da mulher encarando Miracleman começa com uma rejeição, mas se modifica ao analisar a bela figura que se exibe à sua frente. A ausência de atrito do humano ao exercer o tato é apenas a superfície de suas características, em uma fusão com o “Código Harmônico do Universo”. O diálogo que promete demonstrar uma interação entre um mortal e um ser quase divino na verdade revela um comentário metalinguístico que assume toda a frivolidade das histórias iniciais, na qual um poder magnânimo é usado para prender maltrapilhos e cientistas que não apresentam perigo real ante o cenário mundial.

Após a historieta Sonho de Voar, há uma bela exibição de desenhos de esboço de Gary Leach, desde os experimentais arquétipos e pin-ups até figuras rejeitadas pela editora e revista Warrior. Capas variadas são mostradas, destacando a Warrior 2, onde Miracleman volta a ser destaque, fato que não ocorria desde 1963.

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No espaço interno, foram publicados textos explicativos, que diferenciam a origem mística do Capitão Marvel com a científica gênese de Marvelman, e a distinção básica presente nas palavras de poder, do Shazam ao Kimota. O mergulho na intimidade se agrava com um entrevista que Joe Quesada, então editor da Marvel Comics, fez com o criador do herói, Mick Anglo, em 2010, contendo algumas peculiaridades de bastidores. O já idoso quadrinista fala a respeito de seu serviço no exército britânico durante a Segunda Guerra Mundial, e do pouco engajamento na época, modificado com o tempo, em que se destaca o conservadorismo do artista até sua morte, em 2011. As influências do hobby, que era o interesse de Anglo pela Primeira Guerra Mundial e a figura dos nazistas, teriam reflexos claros em sua arte com o passar do tempo.

Antes do fechamento da edição, há a primeira história que o herói estrelou, em preto e branco, em uma intensa luta contra a Bomba Atômica. O traço do autor é cartunesco, e a história contém semelhanças curiosas com os antagonistas, os boromanianos, semelhantes aos primeiros vilões exploradores do proletariado vistos nas histórias de Siegel e Shuster do Superman, motivo que teria sido o catalisador da cassação de direitos do Capitão Marvel, anteriormente. Nos tempos simples das primeiras histórias, a simples menção a Era dos Milagres foi o suficiente para resolver quaisquer problemas, como é visto em Marvelman e o Radiosótopo Roubado, servindo especialmente para exibir os poderes e o ethos do paladino. Já em Marvelman e os Reflexos Roubados, terceiro e último enredo da revista, mostra-se um ingênuo embate entre o poderoso homem e uma cópia fajuta de si, pensada por uma figura genial e semelhante a Garzunga, seu arqui-inimigo.

A revista lançada pela Panini não possui capa dura ou maiores luxos, o que justifica seu baixo preço. De negativo, há as poucas histórias do “Escritor Original” por publicação, o que faz a espera pelo periódico ser ainda maior, piorada pelo fácil acesso a scans traduzidos pela internet. A saga denominada Um Sonho de Voar ainda teria uma boa quantidade de questões filosóficas e ideológicas, cujo escopo é muito mais maduro que os espécimes originais.

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Filipe Pereira

Filipe Augusto Pereira é Jornalista, Escritor, quer salvar o mundo, desde que não demore muito e é apaixonado por Cinema, Literatura, Mulheres Rock and Roll e Psicanalise, não necessariamente nessa ordem.
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