Resenha | Mr. Natural Vai Para o Hospício e Outras Histórias

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A trajetória em quadrinhos do americano Robert Crumb é sinuosa, composta por algumas ideias dissonantes, impopular com o público médio por causa dos temas ácidos que aborda e adorado em “excesso” por quem afeito por seu tipo de arte. A publicação semanal nova-iorquina Village Voice serve de casa para os primeiros gracejos do protagonista deste encadernado, Mr. Natural – Vai Para o Hospício e Outras Histórias, fazendo a contra cultura comum aos editoriais uma rima ideológica enorme com a figura do guru espiritual, cujas aspirações envolvem o completo inverso do status quo que vigora nos Estados Unidos setentista.

O traço do desenhista mistura estilos a princípio distintos, compondo-se a partir de figuras minimalistas, semelhantes a outros cartunistas mais “inocentes”, misturando-se com um tom de anarquia em cada expressão facial hachurada. O deboche visual é um fator importante para compor o background do profeta retirado/aposentado, tendo eco na sua postura anti-social de repudiar tietes; tampouco lhe apetece falar à maneira de um mentor, tendo asco pela figura de ídolo que foi construído anteriormente em torno de si.

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As duas primeiras pessoas com quem trava diálogo, o professor Wanowsky, um amigo seu de longa data, Billy Bob, o rapaz que quis seguir-lhe, contém diálogos estranhos que revelam um peculiar gosto para culinária, além de uma predileção por gerar conflitos, já que permite que um esquerdista acadêmico trave contato pessoal e restrito com um jovem hippie que não tem causa para suas rebeldias.

O deboche em cima da crença em um esoterismo barato só não é maior que a desconstrução da figura religiosa normalmente não discutida ou criticada. O argumento segue lisérgico, inserindo inclusive editores da Voice em seu drama. Para entender o desfecho desta história – Hospício – em sua completude, o ideal é já estar familiarizado com o personagem, ainda que uma leitura somente deste fascículo não faça a experiência tornar-se superficial, especialmente por Crumb se incluir dentro do escopo narrativo.

O máximo que a literatura de Mr. Natural se permite parecer algo edificante, é na posição de enfado do personagem título com o charlatanismo que o tornou famoso, bem como a exploração dos espólios da cultura deste segmento, que com o passar do tempo, deixou a figura do mentor espiritual se perder, por desilusão ou amadurecimento das mentes que abarcavam esse pensamento. É nesse ínterim que o ancião está, sem qualquer receio pelos seus antigos pecados, resultando somente em um ser entediado que, apesar de guardar algumas semelhanças com seu autor, é certamente o personagem menos auto-biográfico dentre os mais famosos criados por Robert Crumb.

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Após o arco maior, surgem tiras menores com elucubrações sobre a existência e um bocado de demonstrações de historinhas curtas de Mr. Natural, que ajudam a mostrar um pouco do tédio que o assolou e que foi o ponto de partida da narrativa inicial. Os contos envolvem também anúncios fakes de prostitutas e de estereótipos raciais/sexuais que debocham do politicamente incorreto, o qual ainda estava longe de seu embrião recente, servindo de argumento contra-cultura que ora atacava os poderosos, ora ajudava no coro ao oprimido.

A obra de Crumb transgride as fronteiras do espectro ideológico “desrespeitando” os dois polos de posicionamento de estado, servindo basicamente de ataque a quase todos os lados políticos e ideológicos, trabalhando na função de desconstruir argumentos, apontando para os defeitos dos dogmas religiosos e valores éticos. Mr. Natural, no entanto, é mais ligado ao “mercado de crenças” e alude à questão do torpor causado pelo “ópio”, sem deixar de avacalhar o ateísmo hipócrita de quem tem regras morais tão rígidas quanto a dos fundamentalistas religiosos. Essa questão, ainda mais flagrante em 1970 do que hoje em dia, possui muito menos vozes dissonantes que o cenário atual, tendo em Crumb um pioneirismo importantíssimo, inclusive em relação a essa evolução.

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