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Resenha | Mr. Punch

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Mr Punch - capa

Da antiga união de Neil Gaiman e Dave McKean, surgiu o romance gráfico Mr. Punch. O cenário é a cinzenta cidade do litoral inglês Portsmouth, e a narrativa é focada na rotina de um menino que está visitando seus avós e que presencia situações bucólicas e insólitas, enquanto percebe a vida adulta bater à sua porta. O títere, que normalmente é um objeto de entretenimento infantil, estampa a capa com compleições bizarras e assustadoras.

A narração em primeira pessoa imediatamente insere o leitor no escopo da tragédia encenada na revista. A marionete Mr. Punch é um dos recursos narrativos que ajuda a levar a história, recordatório de momentos pregressos ao discurso de seu manipulador. O início é lúdico, introduzido como um conto fantástico, que mistura elementos mitológicos modernos em meio ao imaginário típico de uma cabeça infantil. Após o preâmbulo, todo o clima muda, já que o cenário também é trocado, a escuridão dá lugar aos tons amarronzados, da casa dos parentes de gerações anteriores, cujo caráter bucólico provoca no receptor uma sensação de saudosismo e nostalgia.

Em meio a enumeração dos fatos históricos do clã do qual participa, o contador da história rememora momentos que viveu e alguns que lhe contaram, mas demora a contar um fato importante para o restante do desenrolar da trama. Seu avô, dono da casa em Portsmourth, havia enlouquecido, fato contado e diluído em meio a descrição da sua existência enquanto criança ainda, esperando o show de fantoches protagonizado por Judy e Mr. Punch, que através da comicidade, abordavam uma história que contém assuntos pesados, como homicídio e ocultação de cadáver.

Paralelo a narrativa infantil, há demonstrações de nudez, explorada não inocentemente, pois sua abordagem é de modo sexual, não subestimando o pensamento infantil enquanto ser carnal, e não alheio a questão da eroticidade humana. O desenho hachurado de McKean ajuda a grafar o abismo de idade e experiência que há entre o protagonista e o ancião que o acompanha em suas desventuras. Em seus rostos nota-se a diferença de mundos em que as duas partes vivem, não só pelas rugas, mas também pelo semblante, um curioso e outro resignado, já experimentado pela vida e livre do fardo da esperança infinita.

É notável a ambiguidade da obra, que tem na alternância entre as abordagens um avatar fortíssimo. A partir da metade final da obra, quase o tempo todo a narrativa varia entre o contar das desventuras do fantoche e seus coadjuvantes pelo idoso, e outros momentos em que há uma enorme solidão do menino, que nas casas dos outros parentes sente não ter ninguém próximo, mesmo tendo ao seu lado pelo menos algum familiar que o vigia. O seu isolamento só é quebrado quando seu avô finalmente chega.

A negação da loucura de seu parente faz com que o infante narrador comece a mesclar as lembranças que tem com as fantasias de Mr. Punch, por naquelas histórias que ouvia nos tempos pretéritos conterem um bocado de comédia, e tragédia também, uma mistura de euforia e agonia comum ao comportamento e ao modo de entender o mundo como o insano deixa transparecer. O inusitado drama escrito por Gaiman põe em prática um evento episódico e escapista, que trata uma questão espinhosa de maneira lúdica e agridoce.

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Filipe Pereira

Filipe Augusto Pereira é Jornalista, Escritor, quer salvar o mundo, desde que não demore muito e é apaixonado por Cinema, Literatura, Mulheres Rock and Roll e Psicanalise, não necessariamente nessa ordem.
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