Resenha | Batman: A Noite das Corujas

Batman - A noite das Corujas - panini - capa

(Publicado no Brasil em Batman #8 a #11, Aves de Rapina #0, A Sombra do Batman #8 e #9)

A primeira saga pós-reboot da DC que envolve mais de um título surge através do herói mais popular (e caça-níqueis) da editora. A Noite das Corujas tem uma introdução presente nos primeiros sete números de Batman, de Scott Snyder e Greg Capullo, com o arco denominado A Corte das Corujas, que insere um culto secreto que influencia diretamente no curso da cidade, tomando para si os décimos-terceiros andares de todos os prédios da metrópole e liberando assassinos exímios que servem de capangas aos seus propósitos malignos, os Garras.

A saga começa no número oito de Batman, mais uma vez capitaneada por Scott Snyder e, como já era previsto no arco primário, a Corte lançaria um ataque a Wayne. Tal investida é interessante e bem urdida, assim como toda a arquitetura dos assassinatos e a ordem das execuções dos grandes nomes de Gotham. As histórias extras, desenhadas pelo brasileiro Rafael Albuquerque – que já havia feito uma ótima parceira com Snyder em Vampiro Americano – dão um ar de urgência ao drama vivido pelo mordomo Alfred Pennyworth, verdadeiramente amedrontado pela presença dos Garras em sua casa.

As revistas acessórias servem para mostrar como se alastrou a ameaça da Corte, especialmente em Asa Noturna – que mostra um Dick Grayson com uma causa pessoal – , desenhada magistralmente pelo brasileiro Eddy Barrows. Outras histórias paralelas servem como Tains da linha universal da trama. O checklist oficial inclui edições de Batwing, Batgirl, All Star Western, Batman e Robin, Mulher Gato, Detective Comics, Batman O Cavaleiro das Trevas, Capuz Vermelho e os Foras da Lei  e Aves de Rapina.

Em Batman 9, a batalha dentro da mansão Wayne prossegue, com o Cruzado Encapuzado usando uma mega-armadura, a la Robocop, para combater o exército de capangas super-desenvolvidos. Em uma manobra semelhante a que fez em Ano Um, o herói se desvencilha dos opositores com seus companheiros mamíferos, para logo depois se enfiar em uma investigação pela cidade, em que chega atrasado para a execução de Lincoln March. Mais uma vez, a side-line envolvendo os Penyworths, ao final da edição, apresenta uma faceta mais interessante da saga. Os desenhos de Albuquerque abrilhantam demais as seções e tiram um pouco a sensação ruim deixada ao leitor ao ter de suportar a arte de Capullo. As origens explanadas incluem também tramas pretéritas do casal Thomas e Martha a respeito do que seria a Gotham do presente. A chamada Queda da Casa de Wayne é narrada por Jarvis Pennyworth, pai do fiel mordomo.

Incrivelmente as edições de Batgirl não estão mal escritas. Gail Silmone, que estava à frente há pouco tempo dos roteiros de Aves de Rapina até faz um bom começo, com aventuras pouco rebuscadas e de cunho escapista. Até a escolha em por Barbara Gordon tendo um embate contra uma mulher parece ser uma escolha acertada, mesmo que soe covarde. Já em Batman e Robin, a publicação se baseia inteira no carisma de Damian Wayne, que não é pouco. Sua popularidade segura muito bem o título e a violência gráfica também prende a atenção do leitor.

Um dos elementos que deveria ser o diferencial positivo da série acaba por vezes sendo um flagrante defeito. A motivação da Corte das Corujas seria a de limpar a cidade, mas como dito pelos próprios membros, eles são um meio-termo entre a justiça e o crime, o meio-termo entre o bem e o mal, o cinza que converge entre preto e branco. Esse posicionamento pretensamente equilibrado parece mais com algo pouco engajado do que um movimento taxativo. Serve para justificar o sobrenome do Asa Noturna, pois ele seria o “filho do Cinza” – Gray Son – e este argumento não é uma piada. Essa máxima precisava ser melhor trabalhada, e a negligência não se justifica por falta de espaço, visto que muitos números da saga nada dizem, ou seja, havia espaço para fundamentar isso.

Um dos desfechos da saga se dá em Batman Annual 1, com roteiros de Scott Snyder e James Tynion IV, com desenhos de Peter Steigerwald, em uma história que explica um pouco a origem de Victor Fries – o Senhor Frio – além de contar qual foi a sua participação na “ressurreição” dos Garras que atacaram os alvos propostos pela alta cúpula. A gênese do vilão é trágica igual ao seu background pós-Crise nas Infinitas Terras, mas neste é atrelada a Waynetech e (muito) pessoalmente a Bruce, que destitui o cientista de sua pesquisa para a cura de sua esposa, por este não estar desempenhando bem o seu ofício empregatício primário. O herdeiro de ouro de Gotham tem uma postura muito radical e até meio egoísta, especialmente em contraste com o que falava no início do arco, sobre esperança, amor e paz, negand0-se a solidariedade que viria junto a todos esses bons predicados.

O plot twist abre mão de uma condição praticamente canônica relativa a Senhor Frio somente para justificar a motivação de uma sociedade secreta (nunca antes mencionada), um algoz que não faz jus a tais retcons. Toda a construção relacionada a isto é chocante, mas sem qualidade; um grito sem espírito, carente de alma, algo sensacionalista e baseado em nada. Evidente que, a partir disso, a questionável moral do playboy órfão e filantropo volta a ser algo inabalável.

O sacramento da honra de Bruce é preservada; o mesmo não pode-se dizer da moral presente no clã Wayne. A solução escolhida por Snyder para finalmente derrubar a portentosa Corte é muito fácil, nada original, com um ar irritante de comida requentada, pois o roteirista se vale de máximas antes utilizadas por Morrison e por Jeph Loeb em Silêncio, que já havia aventado a possibilidade do irmão  Thomas Wayne Júnior retornar – mesmo como um mcguffin safado – de forma muito apelativa. O grave problema de Corte das Corujas é que ela termina de modo anticlimático e conservador. Todo o circo armado serviria para fortalecer a mensagem repleta de pieguice do homem que jurou proteger a cidade a todo custo.