Resenha | O Despertar: Parte Um

O Despertar Parte Um 1

Scott Snyder e Bryan Murphy dão à luz a um projeto quadrinístico muito semelhante à onda de filmes de ação que se popularizaram na década passada e nesta, a exemplo das películas de Paul Grenngrass, Christopher NolanNicolas Winding Refn e Joe Carnahan. Apesar da estética mais moderna, O Despertar possui um caráter dramático semelhante aos filmes-catástrofe que fizeram sucesso nos anos 50, e que foram regurgitados pelos cineastas dos anos 90 em suas epopeias catárticas, que foram bastante populares no cinema de ação desta época.

Snyder consegue construir uma narrativa que se assemelha em espírito ao seu arco Morte da Família, à frente do Batman, ainda que as consequências nesta versão sejam mais bem pensadas. O viés ecológico é muito presente nesse cenário, bem pontuado pelo traço de Murphy, que aproveita sua experiência com Punk Rock Jesus para mostrar uma história cheia de mistérios que só funcionam graças ao visual idealizado por ele.

Doutora Archer é a personagem cuja trajetória é acompanhada, uma estudante de grandes mamíferos marinhos que tem uma preocupação genuína em desconstruir o status quo, através de denúncias que começam pelo estudo que desenvolve. Logo, Archer é encontrada por  um agente governamental que a põe em uma trama envolvendo uma raça estranha, sub aquática, que teria dado origem a todo o folclore a respeito das múltiplas lendas sobre sereias, maximizando a vocação assassina da criatura.

A estrutura da história faz lembrar demais da do filme O Enigma do Outro Mundo, de John Carpenter, bem como de seu original O Monstro do Ártico, ainda que a origem do “monstro” seja marinha. A predação da figura, até então desconhecida, se torna ainda mais grave graças a sua inteligência, primeiro aventando-se a possibilidade de ter o mesmo sistema de comunicação de mamíferos semi-inteligentes, como as baleias, para então se descobrir que sua mentalidade é bem mais próxima dos animais racionais.

Os tons azuis fazem aumentar ainda mais o impacto do sangue se espalhando, dando vazão a uma das marcas interessantes do selo Vertigo, que permite aos seus autores mostrar violência extrema. Em O Despertar, essa abordagem ganha um cunho tradicional, já que a história viaja milhões e milhares de anos no passado. As cores de Matt Hollingsworth ajudam a compor um quadro bem mais adulto, se valendo de sua experiência com Hellboy e Hellblazer, casando em perfeição com a visão hachurada que Murphy tem sobre seus personagens.

Apesar do encadernado não concluir sua história, o arco da personagem principal é bem fechado, aludindo à maternidade de Archer e à preocupação não só pessoal e familiar, mas também com o todo do cenário mundial, que aparentemente também é atacado pelas mesmas criaturas que o atemorizaram. Sendo este somente o início de uma história maior e mais catastrófica, O Despertar constitui-se em um belo prelúdio para uma hipótese mais trágica.