Resenha | O Segredo da Floresta

Em tempos de individualidade quase extrema, da ‘distância entre corpos presentes’ que as ofertas tecnológicas promovem, de tempos em tempos uma pulguinha atrás da nossa orelha nos lembra de sair da frente das telas, telinhas e telões, e fazer contato físico e real com quem está a nossa volta. Com o futuro atrás da porta, e sempre batendo para entrar, os mais conservadores apontam que é provável que essa pulguinha não viva por muito tempo, e a interação entre as pessoas fique cada vez mais fria, intangível e distante. Sendo assim, O Segredo da Floresta é um doce lembrete para todas as idades que vale a pena sim repousar a atenção, e perceber que, aquilo que Gandalf fala para Bilbo Baggins, no começo da saga O Hobbit, é a mais pura verdade.

‘O mundo está lá fora’, e sempre vai estar. Uma graphic novel para todas as idades, sim, mas especialmente às mais jovens que com certeza apreciam muito mais uma narrativa simplória, e com grande apreço pelo uso das imagens e cores chapadas dando o tom, nessa aventura familiar muito menos descompromissada do que parecer ser. Aqui, quando a matriarca da casa viaja para cuidar da mãe doente, o pai não desiste da pescaria que havia marcado com os amigos, e resolve levar os filhos um tanto ‘incomunicáveis’ para essa noite especial, e irreverente, ao ar livre. A mensagem, então, é clara: quando há um abismo entre as pessoas, é preciso construir pontes caso ainda haja um pingo de interesse em não afastá-las, ainda mais.

De prontidão, é claro que Nina, a filha mais velha e adotada, resiste em sair com sua família, enquanto Lucca, o mais novo e seu inseparável cãozinho mostram-se afoitos, mais animados que a própria figura paterna que acaba convencendo-os, finalmente, a passarem um tempo juntos. A história mostra como pessoas da mesma geração percebem-se e veem o mundo de formas diferentes, e que de previsível as pessoas não tem (quase) nada. Ambos os irmãos carregam dificuldades claras em se comunicar, e com um ‘mundo novo’ a experimentar, para aqueles que não saem da frente do celular e dos laptops, eles se perdem do pai para resgatar o cão que se embrenha na mata fechada e noturna, tal um chamado do destino à aventura reconciliadora.

O Segredo da Floresta, publicação da editora Panini cujo zelo estético pelas histórias é sempre muito grande, mira em cheio o público infanto-juvenil e acerta o interesse da garotada com suas mensagens simples, e valiosas, e com seus elementos fantásticos que nunca ofuscam os propósitos desse conto. Os desafios de uma floresta a noite, cheia de perigos e infestada de surpresas, unem Lucca e Nina como posts engraçadinhos das redes sociais jamais fariam, de verdade, fazendo-os sentir e ter a certeza, ao longo das situações, que os laços entre eles não precisam ser tão frágeis, assim, do jeito que o cotidiano, repetitivo e entediante, (n)os faz pensar que sejam.

Talvez o grande segredo aqui, surreal como as crianças gostam, e mostrado através do traço inconfundível de Felipe Nunes, de Dodô, seja o mistério de como manter uma relação, não apenas em tempos cheios de desafios reais e enormes para isso, mas de como fazê-la dar certo diante das adversidades que surgem, inevitavelmente, para qualquer um. Se o dia a dia afrouxa até os contatos mais importantes, não caberia a nós melhorar as coisas antes que elas terminem indo para o ralo? Nunes e o músico poeta Thedy Corrêa criaram uma HQ que diverte e faz pensar, e essa sempre foi a principal intenção dessa adorável publicação brasileira.

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