Resenha | O Sombra – Vol. 1 : O Fogo da Criação

O Sombra - Fogo da Criação - Capa

A Dynamite Entertainment, fundada em 2005, é responsável pela releitura de antigos personagens de quadrinhos, populares em eras anteriores ao domínio da DC e Marvel Comics. Personagens como O Fantasma, O Sombra, Vampirella e o Besouro Verde são exemplos deste retorno às origens dos quadrinhos. Heróis que vem sendo lançados pela Mythos Editora em encadernados especiais.

Criado para um programa de radiodifusão, o vingador mascarado que lutava contra o crime conquistou popularidade suficiente para cativar os ouvintes e se propagar em outras mídias, como os quadrinhos. O sucesso do herói perdurou até o final da década de 40 quando, após mais de 300 edições, seu gibi foi cancelado. Desde então, a personagem sempre foi retomada pela indústria, seja em novas edições de quadrinhos, séries ou na provável única encarnação conhecida por grande parte do público recente, uma produção cinematográfica de 1994 estrelada por Alec Baldwin.

No retorno do herói, que conhece o mal no coração dos homens, Garth Ennis assina a saga inicial, lançada integralmente pela Mythos Editora em uma edição de luxo com o primeiro roteiro na íntegra, capas adicionais e esboços de Alex Ross, um dos capistas das edições americanas, e arte de Aaron Campbell.

Diferentemente de outros heróis, que a cada releitura são inseridos no tempo presente, O Sombra permanece em sua época de criação, tornando-se um representante histórico da luta contra o crime em um momento de tensão e polarização global. A narrativa de Ennis se evade da eventual história de origem feita para um novo público e confia na potência da personagem, apresentando-a em uma trama investigativa sobre o passado, polarizado entre as tensões de guerras mundiais, do herói.

Soldado da Primeira Guerra Mundial, Kent Allard dominou as artes do hipnotismo e simulou a própria morte para retornar como Lamont Cranston, um bon vivant, colaborador da polícia e combatente do crime. Trajando roupas pretas, chapéu e um lenço vermelho cobrindo o rosto, a ilusão e a teatralidade fazem parte de sua concepção. Não à toa, este e outro herói da época, Aranha, foram inspiração para o estilo consagrado do Homem Morcego.

O roteiro de Ennis apresenta tanto a faceta heroica quanto a do alter ego playboy, equilibrando-se entre dois polos da aventura: a investigação formal para descobrir se os japoneses estão de posse de um mineral com potencial destrutivo para definir a guerra, e as incursões do Sombra contra o mesmo grupo. Mesmo prezando pela justiça, não há um senso moral de que bandidos devam ser poupados. Munido de duas armas calibre .45, Sombra atira sem nenhuma piedade, enquanto faz da sombra e do hipnotismo os aliados para confundir os inimigos. Fundamentado além do rádio pelas narrativas pulps, por meio da ambientação e da violência, o alter ego de Cranston tem a tiracolo um interesse amoroso: Margo Lane. Normalmente, Lane é sua parceira de ação – um elemento diferente do costumeiro sexismo dos quadrinhos – porém, nesta trama, não tem destaque além do fato de acompanhá-lo e ser a única que conhece a dupla identidade do protagonista.

Bem dosada entre aventura e investigação, Fogo da Criação é uma boa história, capaz de conduzir o leitor a outra época heroica. Porém, diante da gama variada de narrativas e do domínio das grande duas editoras, é necessário fôlego para que a personagem se consolide neste momento do mercado sem parecer apenas uma lembrança nostálgica. Os quadrinhos de O Sombra continuam sendo lançados nos Estados Unidos com direito a histórias Ano Um remontando a sua origem. Aguardemos estes lançamentos no país também.

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