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Resenha | Os Anos de Ouro de Mickey: 1931-1932 – Mickey no Circo e Outras Histórias

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Como é possível um rato, um ser repugnante do esgoto, servir de inspiração para um personagem que deve ser um sucesso entre todas as pessoas? Tornando-o mais que divertido, amigável, icônico em sua aparência e nas amizades e desavenças que encontra pelo caminho, Walt Disney e Ub Iwerks não apenas deram-lhe a alcunha de símbolo pop universal, como principalmente fizeram do curioso e destemido Mickey Mouse a síntese substancial de tudo e todos que viriam após a sua criação, ainda na aurora dos antigos estúdios Disney. O namorado de Minnie já passou pelas mãos dos mais diversos e talentosos desenhistas da casa de Branca de Neve e Dumbo, mas nunca lhe foi permitido perder sua essência primordial – no início, Mickey muitas vezes foi apresentado como um artista, literalmente fazendo as pessoas felizes enquanto escapava ou se metia em mil encrencas.

A jovialidade aqui presente é latente, e todas essas características muito bem asseguradas desde o começo por sua dupla criadora fazem deste personagem inconfundível um clássico que sempre uniu gregos e troianos para participar de suas façanhas, e irresistível estripulias. Porém, algo precisava ser feito para ajudar um artista solitário. Estamos falando de Floyd Gottfredson, cartunista de grande aptidão que substituiu no começo de 1930 Ub Iwerks, este indo embora com seus próprios projetos. Gottfredson se viu sozinho para comandar um ícone cada vez mais amado pelo público, e uma vez que “ostra feliz não produz pérolas”, a óbvia pressão impulsionou a criatividade de um dos principais colaboradores de Mickey a expandir as possibilidades. A responsabilidade era enorme, mas se distanciar do que já tinha sido estabelecido estava fora de questão. A missão, portanto, era abraçar um passado recente, e abrir novas portas para novas ideias.

Assim, Gottfredson não apenas continuou com as qualidades originais do ratinho espoleta, como deu-lhe um ar mais detetivesco nas histórias de perseguição e crime (lembre-se que estamos aqui nos tempos da Grande crise econômica americana, dos anos 1920/30), e concedeu-lhe também seus populares companheiros de aventura para ressaltar os pontos mais forte de Mickey, com muito humor e irreverência típicos de uma época mais simples, doce e ingênua do entretenimento. Ao imprimir elementos reais em histórias fantásticas, Gottfredson se mostrou absolutamente habilidoso nas divertidas metáforas que produziu, sugerindo o charlatanismo, a malandragem e o altruísmo de um povo largado a própria sorte – ou azar. Percebemos isso claramente em duas brilhantes e longas histórias reunidas, entre outras, neste segundo volume dos Anos de Ouro de Mickey, publicado no Brasil pela editora Abril, em um trabalho gráfico de esplendorosa excelência.

Em “Mickey e os Ciganos”, na qual Minnie viajando com seu namorado e amigos é sequestrada por ladrões atrapalhados, podemos sentir o forte sentimento de impunidade que nasce dessa situação, refletindo (in)diretamente o espírito da época. Também retratando as dificuldades socioeconômicas do seu tempo, “Mickey e O Grande Roubo do Orfanato” talvez seja uma das melhores histórias já criadas para o personagem. Nela, ao saber da miséria de uma instituição que acolhe jovens desamparados, o ratinho e seu amigo Horácio armam uma peça de teatro para angariar fundos ao orfanato, mas quando todo o dinheiro é roubado, a polícia acha que os dois são os principais culpados. Agindo então como detetive em um contexto tanto urbano, quanto rural, Mickey começou nos anos de 1931/32 a ser agraciado com histórias levemente mais complexas e até mesmo mais ousadas que as aventuras de seus primeiros anos de publicação, em tiras semanais ou em desenhos animados.

Com vários arquétipos ainda presentes em certos momentos desses Anos de Ouro, como a representação estereotipada de negros e mulheres, por exemplos, os estúdios Disney já se mostravam hábeis o bastante para evoluir suas ideias sem perder qualquer traço de familiaridade. Universais e tão icônicos como podem ser, nenhuma outra criação oriunda do estúdio foi tão perfeita sendo seu porta-voz essencial quanto Mickey, e isso podemos atestar em cada tirinha reunida nesta impagável coletânea, perfeita para qualquer estante.

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Douglas Olive

Cinéfilo formado em publicidade e iniciante com "Os Aristogatas", que assistia 5 vezes por dia na infância, e que agora começa a querer fazer seus próprios filmes. Devo estar indo longe demais.
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