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Resenha | Os Invisíveis - Volume 1: A Revolução

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Os Invisiveis - Revolução - Panini Comics - Capa

Grant Morrison introduz anarquismo, terrorismo e viagem temporal em Os Invisíveis - talvez a mais louca experiência do autor em quadrinhos desde Patrulha do Destino. Sem usar os clichês, comuns neste universo, sua abordagem é diversificada e lembra o efeito de barbitúricos, pois é ácida e psicodélica.

Dane McGowan, de alma arredia, é um menino que tenta ser nefasto e criminoso a despeito até de sua idade. No entanto, sua tenra juventude não permite que esse desejo se realize. Seu olhar registra as inúmeras pichações de King Mob que, como um mantra, penetram em sua mente por meio da repetição. A rebeldia dos meninos é reprimida num ambiente semelhante a de uma casa de repouso, a qual, na verdade, realiza tratamentos psíquicos nos detentos. O intuito destas experiências envolve a reeducação dos garotos.

No primeiro arco, há uma bifurcação que se relaciona ao protagonismo da história: as partes são Gideon, um sujeito que esconde uma habilidade incomum de longevidade, e o outro é Dane, movido por ideais incendiários e que parece habitar um mundo de extremos, onde não tomar uma atitude significa não ser ninguém. A rejeição que o menino sofre dentro de casa ajuda a agravar ainda mais o seu sentido de inexistência e o complexo de inferioridade que sofre.

A rebeldia e o vandalismo são as formas que o jovem encontra para chamar a atenção do mundo dos adultos, e, após um crime, ele é julgado e sentenciado a ir para uma casa de reabilitação, a Casa da Harmonia, uma instituição com viés alienador e que corrige seus detentos com métodos esquisitos, envolvendo criogenia e castração dos internos. Dane é salvo por uma mini-sociedade secreta, com motivações semelhantes às suas próprias, mas que tem poder real para mudar o status quo e não para mantê-lo, como tanto queriam os homens da Casa da Harmonia. Estes se chamavam Os Invisíveis.

O que o personagem orelha ainda não parece ter entendido é que algo “oculto” comanda seus opositores, aumentando ainda mais o escopo de teoria da conspiração presente no título. No segundo número, denominado Pra Baixo e Pra Fora no Céu e no Inferno, um pregador, mostrado como um pseudo-revolucionário, começa o arco gritando sobre a ditadura da ideia. Ainda que seu discurso seja fraco, ele contém uma indagação forte: "quando foi a última vez que você teve um pensamento que não foi imposto por eles?”. Logo, o rapaz encontra um mendigo chamado Tom, que, atrás de seu comportamento de pedinte bêbado, esconde um enorme poder, convocando Dane para ser parte da tal sociedade secreta.

O mendicante é um mentor pouquíssimo inspirador, seja por seu estilo de vida ou pelo seu método de ensino, pouco ortodoxo, para dizer o mínimo, que se utiliza da violência com o aluno. O intuito de libertar Jack Frost faz com que ele seja deveras agressivo com Dane, a fim de que este rompa com seus antigos medos e meios de vida para ressurgir como um novo homem. Certamente sem estas reprimendas, Dane não conseguiria expor todo o seu potencial e jamais chegaria ao ponto de sentir falta do mestre quando este sumiu. Depois de uma bad trip, Dane se encontra finalmente com King Mob e com os Invisíveis, e a ele é revelado que jamais lançou mão de alucinógenos. A doideira que viveu realmente aconteceu, e subitamente é obrigado a fugir com o grupo, antes que os opositores o alcancem.

A lancinante fuga dos opositores faz Dave olhar o ancião com outros olhos. Aos poucos, muda sua perspectiva, mas em momento algum parece forçado a mudar a própria postura. A utopia do pensamento poético é discutida por meio de um retrocesso temporal que contempla uma discussão entre um par de artistas, o qual demonstra o prazer em falar da realidade e do metafísico, inclusive pondo em pauta a sua importância enquanto emissor da contestação no panorama político e o quão vazio ou repleto de conteúdo ele pode ser. Além disso, a dupla fala da sua importância enquanto formadora de opinião para gerações vindouras, especialmente as que não sofrem com uma tirania tão presente quanto a que vigora naquela linha temporal.

Ainda neste ínterim, Jack Frost - alcunha dada pelos membros do grupo a Dean - começa seus treinamentos junto ao quinteto elemental, e enquanto aprimora sua parte atlética, discute os clichês do Thug Life com Boy, uma mulher negra de compleições femininas, apesar de seu codinome. Paralelo aos dois comentários, o planeta mostra-se como um ambiente em que coexistem "mundos" muito diversos. Nele, há um modo orgânico e simbiótico que permeia esta paisagem e onde, além de se notar uma forte influência militar, discute a máxima física de que dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço. O paradigma é notório. As criaturas, modificadas geneticamente por influência da radiação, condição que ultrapassa o arquétipo do normal e passa pela figura de mal necessário, parecem ser apenas parte de um efeito colateral de uma sociedade (supostamente) evoluída, mas que, obviamente, não pode ser levada de modo tão categórico quanto a apelação apolínea pede.

Em outro momento, o quinteto consegue - vias misteriosas fontes - retornar ao passado, a uma era distante demais daqueles anos 1990. A Era Vitoriana deixa toda a sua aura clássica para apresentar uma fina camada de neblina, inebriante, cujo torpor quase ameniza as situações violentas mostradas na publicação.

Arcádia tem um cunho contestatório ligado ao aspecto social e político, num arremedo de Morrison deveras inteligente que se utiliza de um clichê dentro do gênero ficção científica para perverter a mensagem e elevando-a a um ponto anarquista do aspecto político. As fronteiras entre realidade e o mundo imaginário ainda não são completamente claras, e neste início não é sequer correto declarar se há realmente uma diferenciação clara entre dois aspectos.

Invisíveis é uma obra que foge do mainstream de quadrinhos, e, nos episódios posteriores, se aprofunda mais nas questões e aspectos políticos da trama, uma vez que os arcos precisam ser lidos em seguida para se ter uma compreensão completa do todo. Neste momento, Frost ainda era um neófito, um Invisível em começo de carreira. No entanto, este tomo, Revolução, já deixa o leitor a par do que virá nesta abordagem anormal da sociedade, retratando temporalmente, de modo singular, muitos períodos.

Filipe Pereira

Filipe Augusto Pereira é Jornalista, Escritor, quer salvar o mundo, desde que não demore muito e é apaixonado por Cinema, Literatura, Mulheres Rock and Roll e Psicanalise, não necessariamente nessa ordem.
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