Resenha | Paraíba

São Paulo é a grande metrópole do Brasil, a maior cidade do país e o grande centro econômico da América Latina. Tida como apaixonante por muitos e apavorante por outros, é ela o palco da história em quadrinhos Paraíba, de autoria de Gabriel Mourão e Olavo Costa.

A narrativa gráfica conta a história de Fernando e Laura, pessoas completamente diferentes, mas que acabam se relacionando a partir dessas grandes divergências. O jovem introspectivo, se sente em constante inadequação e sufocamento em São Paulo, e acalenta o sonho de se mudar para a cidade de João Pessoa, na qual acredita poder recomeçar a vida, fugindo de todos os aspectos que o desagradam na capital paulista.

A Paraíba, para Fernando, é como uma Shangri-La, um paraíso no qual seus anseios serão satisfeitos e ele poderá enfim ser feliz e realizado consigo mesmo. Inseguro, o jovem encontra em Laura uma vivacidade a qual ele gostaria de comungar. A jovem atriz é livre, bem resolvida e desprendida de quaisquer impedimentos sociais e mentais, e encontra em Fernando alguém para “salvar”, alguém a quem ela pode tocar e transformar, de alguma forma.

O anseio pela fuga de um cotidiano entediante os aproxima, e a sensualidade presente nas sequências em que os dois dividem a cena é resultante de um competente trabalho de montagem entre roteiro e arte.

A narrativa quebra com a linearidade temporal, alternando tempo e espaço sem aviso prévio, deixando o encadeamento das cenas por parte do entendimento do leitor, fazendo uso das cores para fins de referenciação e orientação diegética. Gabriel Mourão logra êxito ao encaixar sua fragmentária e dispersiva história com maestria, alternando também o papel de narrador entre Fernando e Laura, tática que torna a compreensão da história como uma via de duas mãos bem mais palatável para o leitor.

O traço de Olavo Costa apresenta uma limpeza marcante, que contrasta com a firmeza demonstrada em cada quadro. A expressividade da arte remete ao cartum em certos momentos, ao mesmo tempo em que dialoga com o traço de grandes mestres da nona arte como Darwyn Cooke e Will Eisner, bem como talentos contemporâneos como Chris Samnee e Greg Smallwood. A diagramação, ainda que pouco inventiva, apresenta perfeição técnica dentro dos padrões narrativos consagrados para o meio.

Como supracitado, o trabalho de colorização em Paraíba é marcante, visto que as cores exercem um papel fundamental na decodificação da história. Partindo de um começo recheado de cores vivas, na conversa entre Fernando, Bruno e Laura, passando pelas pinceladas em tons de azul nas memórias da jovem, até a gradação dos tons pastéis para cores avermelhadas no aprofundamento da relação e da crescente tensão sexual do casal, as cores configuram-se como verdadeiros eixos sintagmáticos na construção da narrativa de Mourão e Costa.

Com um final excessivamente aberto, o quadrinho conta com excelentes momentos e diálogos inspirados, ainda que o desenvolvimento dos personagens soe demasiadamente clichês em determinados pontos da história. A história em quadrinhos, de 64 páginas, saiu no país publicada pela SESI-SP Editora, em 2016, e conta com excelente acabamento, semelhante a títulos de destaque como Blacksad e Verões Felizes.

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