[Resenha] Pequenos Milagres

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Pequenos Milagres é uma coletânea de contos do lendário Will Eisner e localizado na mesma Noite a York onde passou a infância. A publicação exala credulidade e esperança, sentimentos que já estiveram em voga mas que caíram em desuso, servindo então de contraponto as sensações que se estabeleceram como padrão no fim do século passado.

A primeira história, O Milagre da Dignidade, se foca em dois homens, um sujeito rico – Irving – e outro que vive mendigando – Amos. Irving então resolve ajudar o sujeito que passa necessidade, mas rapidamente os quadros se invertem, para então se discutir temas como ganância, arrogância e ingratidão. O tamanho curto do drama evoca simplicidade para falar dos círculos viciosos da vida e sobre a não necessidade do egocentrismo para o cotidiano. Não há didatismo na trama, só pragmatismo e uma mensagem rica e concisa.

Há alguns segmentos mais curtos, cujo cunho de superação abunda exacerbadamente. Uma das narrativas com mais páginas, Um Novo Garoto no Quarteirão mostra um rapaz calado, misterioso e de origem igualmente desconhecida, que se aproxima do vilarejo e marca a rotina das pessoas de modo indelével, ainda que seja indireto, na maioria dos casos. A descoberta sobre a filiação e real identidade do rapaz revela uma história de abandono terrível, onde não há culpados e o seu sumiço faz coincidir com uma série de conflitos e infortúnios, como se a presença do rapaz segurasse o ímpeto de fúria dos residentes daquela vila.

Após esse momento inspirado, o último conto, Anel de Casamento é polêmico, por se tratar de uma tradição muito antiga, que gira em torno dos casamentos arranjados via conveniência. O casal em questão é formado por um sujeito que não tem uma perna, e é tratado o tempo inteiro como um invalido e incapaz, e uma mulher que tem problemas de surdez e mudez. No decorrer da trama, algumas reviravoltas põem em cheque os sentimentos da mulher, que se vê adentrando em um campo de normalidade não antes usufruído por ela. Esse julgamento de valor é complicado e soa ofensivo mesmo em épocas mais antigas, invertendo a intenção de Eisner em mostrar um amor perdoador, exibindo uma sociedade que é doente em suas restrições de pensamento e em seus próprios preconceitos.

Ainda assim, o saldo final de Pequenos Milagres é positivo, causando reflexão por um lado ou por outro, e com uma estruturação narrativa única e condizente com o talento do quadrinista.