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Resenha | Planetary: Vol. 01 – Pelo Mundo Todo e Outras Histórias

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Em 1999, Warren Ellis, que já havia publicado Stormwatch e estava em vias de lançar os primeiros números de Authority pela Wildstorm, se juntaria a John Cassaday, que até então não havia alcançado notoriedade, para lançar Planetary, uma série que mostrava um grupo disfuncional formado por um trio de personagens completamente diferentes entre si e que tinham função curiosa: recolher informações sobre artefatos místicos, investigar eventos inverossímeis e catalogar pessoas extraordinárias que antes eram anônimas.

Conhecidos como os Arqueólogos do Impossível, o conjunto pretendia escavar os últimos cem anos da era heroica. A priori, era formado por três membros: Jakita Wagner, que resumia-se em liderança, o Baterista, um sujeito que se comunica com qualquer aparelho mecânico, e o centenário personagem Elijah Snow, um sujeito misterioso e que concentra a maior parte dos mistérios presentes neste arco. A equipe é bancada pelo 4° elemento do grupo, um multimilionário de identidade desconhecida até então.

As histórias são fechadas em suas próprias edições, ainda que corra uma trama por trás delas. A ideia de Warren Ellis em fazer o universo “fantástico” baseado numa amálgama que seria a soma de cinema, quadrinhos, literatura e o que mais sobrar da cultura pop é ótima, além de ser respeitosas as figuras que homenageiam e reverenciam na abordagem escolhida.

Elijah passou sua vida inteira no século XX, e pela sua experiência é recrutado por Jakita Wagner para se juntar ao esquete, com a prerrogativa de que ele recebesse uma gorda remuneração caso aceitasse o emprego, mas aos poucos o grisalho homem percebe outras vantagens no oficio recém-apresentado, especialmente em relação à investigação, pois além de mapear as atividades de pessoas sobre-humanas, o ofício ajuda Elijah a adentrar em uma jornada de autoconhecimento, usando, claro, os análogos de heróis como avatares de seus próprios medos e anseios, colaborando para entender o seu passado e suas próprias habilidades.

No primeiro número é mostrada uma sociedade secreta de super-humanos que descobre um portal dimensional inexplorado. O vórtice permanece incógnito por décadas, sendo a porta para um Multiverso. O roteiro faz alusão aos fatos ocorridos na mega saga Crise Nas Infinitas Terras e os personagens que formam a força-tarefa é composta por análogos dos heróis da era pulp: Doc Brass é uma homenagem a Doc Savage, herói de quadrinhos populares das décadas de 30/40; há menções também a TarzanSpiderFu Man ChuTenente Swift (da série de livros de Howard Garis – sob o pseudônimo Victor Appleton), James Christopher ( o agente #5, precursor de James Bond),  e o aviador inspetor G-8. A referência visual, os seres mais poderosos em volta de uma enorme mesa redonda, lembra muito a Sociedade da Justiça da América, que teve de se aposentar após a 2ª Guerra Mundial, além de ter um caráter semelhante a Liga Estraordinária de Alan Moore e Kevin O’Neill.

A segunda história envolve uma ilha com animais e monstruosidades gigantescas que é invadida por um grupo de arqueólogos japoneses liderados por um Mishima (expoente literário japonês que seguia a risco o código dos samurais e ativista político). Os monstros que destruíam Tóquio foram homenageados, especialmente GodzillaGhidorah, Mohtrah, Rodan, além das criaturas gigantes antagonistas aos heróis tokusatsus, também citados, além de mostrar a ilha em que eles eram concebidos.

John Cassaday tem muito talento em registrar visualmente a violência, pois os assassinatos são prodigiosamente bem construídos. O roteiro, apesar de simples, reproduz perfeitamente o clima presente nos filmes de ação de Hong Kong, na terceira edição, além de explorar bem o conceito de pistoleiro espectral, clichê muito utilizado nos filmes asiáticos. A quarta edição conta com a história de um ser humano que tem contato com uma superior raça alienígena e é uma viagem escapista a uma invenção, distópica, tecnológica e perfeita, clara analogia ao Capitão Marvel, em que Ellis mostra toda a sua admiração pelo personagem. Já na edição zero, Ellis brinca com o mito do Hulk, através do cientista David Paine que sofre um acidente, torna-se uma monstruosidade e é abandonado, deixado para morrer numa vala comum.

Doc Brass e Snow nasceram em 1° de Janeiro de 1900, e há algo ainda nebuloso sobre a questão: a edição cinco é toda uma conversa entre os dois, cortadas pelas lembranças dos áureos tempos do doutor. As cores de Laura Depuy e David Baron fazem com que a já excepcional arte de Cassaday torne-se magnânima.  Ao final da edição, uma figura poderosa que se auto-intitula William Lether tem a oportunidade de enfrentar Elijah Snow, mas deixa o embate para depois e vai embora sem um enfrentamento na conclusão. O encadernado compreende as primeiras seis edições de Planetary, e é apenas o tímido começo para uma das melhores e mais competentes obras de Warren Ellis.

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Filipe Pereira

Filipe Augusto Pereira é Jornalista, Escritor, quer salvar o mundo, desde que não demore muito e é apaixonado por Cinema, Literatura, Mulheres Rock and Roll e Psicanalise, não necessariamente nessa ordem.
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