Resenha | Ponto de Ignição

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Escrita por Geoff Johns e com arte de Andy Kubert, a saga Flashpoint teve a dura função de pavimentar o caminho do Universo DC tradicional para o Reboot e os Novos 52. A história começa com um ser misterioso a procura do Flash, e logo depois mostra o seu alter-ego investigando um estranho caso de homicídio envolvendo um mascarado, o Garoto Elástico, que aparece em uma forma “geriátrica”. Com o decorrer da revista é mostrado que o perseguidor é o Barry Allen de uma terra paralela. A contraparte do herói explica que ele não veio do futuro, mais de uma das 52 Terras Paralelas, e que a dita “Terra 1“ seria essencial a existência das outras 51 – o motivo de sua vinda seria uma tempestade temporal que se aproximava, e afetaria a todos os personagens que vieram de outras épocas.

No decorrer das investigações, descobre-se que há um vilão roubando a juventude de mascarados, e sem muitas surpresas, ele se revela o professor Zoom – que agora tem a habilidade de mudar sua idade, o que torna o vilão irrastreável até mesmo para o Flash. O malfeitor ainda mata o Barry Allen da terra paralela – com um prazer incomensurável. O fim deste prólogo mostra o herói isolado e  pensativo em relação as próximas ações do Flash Reverso.

Em Flashpoint #1, Barry acorda na delegacia e ao sair para verificar uma ocorrência policial encontra sua mãe que estava morta. O vigilante começa a investigar o motivo dessa e de outras mudanças na linha de tempo e decide invadir a mansão Wayne. Ao chegar lá, percebe uma das principais mudanças deste universo em relação ao seu próprio tempo – quem morreu na noite do fatídico assalto, não foram os pais, e sim o menino Bruce, o Batman desta linha temporal é Thomas Wayne – muito mais violento e sem restrições quanto a execuções. Após ser recebido com pouquíssima boa vontade, Barry consegue convencer o ex-médico de que ele era amigo de seu filho, e vinha de um universo paralelo, e de uma maneira bem estúpida o Morcego aceita a história de bom grado – essa é só uma das incongruências da série, e piora de forma absurda quando Barry convence o Cruzado Encapuzado a amarrá-lo numa cadeira e atrair um raio para a própria cabeça – nas HQs já foram feitas inúmeras tentativas de reproduzir o acidente, mas nenhuma com sucesso, Johns parece ter ignorado isso sumariamente.

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Enquanto isso é mostrado, o quadro geral deste Universo Flashpoint, como a guerra travada entre atlantes e amazonas – abordada também em Imperador Aquaman e Mulher Maravilha e as Fúrias. Após o malfadado casamento entre Arthur e Diana ruir e jogá-los numa guerra de motivações altamente discutíveis. Numa tentativa de selar a paz, o Rei Atlante visita Themyscera – no que seria o 1° encontro após a morte da Rainha Hipolita pelas mãos de um oficial atlante – e é acompanhado de um ataque que destrói a ilha. Diana e as amazonas se exilam e procuram um novo lar, tomando a Grã-Bretanha para si. Após isso, ocorre uma tentativa fracassada de assassinato a nova monarca, e uma baixa importante ocorre – Mera, esposa de Aquaman – e a resposta é imediata: o Soberano Aquático inunda toda a Europa, destruindo o continente.

Alguns Tains não funcionam como parte da trama, mas servem pra aprofundar o cenário da Saga, apresentando o universo. No entanto alguns desses detalhamentos são desnecessários. A distância entre as edições 2 e 3 de Flahspoint atrapalha um pouco a leitura – o excesso de histórias paralelas empobrece o arco principal, na maioria das vezes. A revista do Renegado de James Robinson por exemplo é muito bem escrita, mas acrescenta quase nada a trama principal. Passo contrário ao Batman- o Cavaleiro da Vingança de Bryan Azarello e Eduardo Risso, que dá um background interessante a um personagem ativo na história – a repaginação dos personagens do universo do Morcego é sensacional: Selina Kyle, Pinguim, Harvey Dent tem suas facetas bem diferenciadas, mas a melhor caracterização é a do Coringa, que amalgama características do Joker de Heath Ledger e o da Piada Mortal, num assassino infanticida traumatizado – e com um passado tenebroso. A revista é tão boa que serve como Elseworld perfeito, o independente de Flashpoint até.

Outro Tain que vale a pena conferir é Legião do Mal, com a arte de Rodney Buchemi. A história foca em personagens vilanescos e também numa versão evil do Homem-Borracha, absurdamente poderoso e uma máquina assassina. Além do mineiro, outros desenhistas brazucas contribuíram para a saga, como Felipe Massafera – em Abin Sur, numa história passável – Eduardo Francisco e Paulo Siqueira (na horrorosa Universo Flashpoint). O lápis de Vicente Fuentes – em Imperador Aquaman – também é ótimo.

Os melhores momentos de Lois Lane – e de seu grupo de resistência – são nas revistas de Jons/Kubert. A descoberta do alien Kal-El é bastante curiosa, assim como a ação de resgate dele. A entrega do Cyborg – O Super-Herói do Governo, mas que na prática pouco aparece – mostra o quanto ele confia no Batman e em sua astúcia.

O Imperador Aquaman disputa com o morcego a melhor caracterização de Ponto de Ignição. Arthur Curry é um déspota em busca de vingança que convence o leitor de que ele é capaz de dominar o mundo, ao contrário da sua faceta no universo tradicional, que gera piadas repetitivas desde Superamigos. Diana também é mostrada como uma guerreira implacável, líder nata e capaz de muitos atos ousados. A rivalidade entre eles e seus reinos é um ponto fortíssimo do roteiro de Geoff Johns, a despeito de todos os outros defeitos da série.

Outro ponto curioso é personificação do Capitão Trovão (Capitão Marvel no universo tradicional), que constitui em Billy Batson e outras crianças juntas. Chega a ser engraçado a forma como as mulheres se vestem em Nova Themyscera, o que afasta qualquer dúvida em relação ao forte apelo lésbico por parte das amazonas – para desespero de Raul Seixas.

No ato final, Barry é defrontado com a verdade, seus atos impensados tornaram aquela versão do universo catastrófica, e seria sua responsabilidade consertar tudo. A priori, o plano de Zoom é ousado e interessante, principalmente por garantir sua existência autônoma a despeito da existência do Flash e de suas várias encarnações, mas a execução poderia ser mais caprichada, as soluções de Johns são mal construídas e recheadas de clichês, há uma desnecessária banalização do vilão. A solução do paladino para deter a catástrofe é fraca e anticlimática. A situação da carta de Thomas Wayne ao seu filho da terra paralela, alivia um pouco a barra do roteirista, principalmente no paralelo entre Flash e o deus grego Mercúrio onde ambos são mensageiros para os deuses de seus universos.

Ponto de Ignição poderia ser uma série muito boa, mas o excesso de histórias paralelas irrelevantes atrapalha um pouco, além das invencionices de Johns, que quis dar um passo maior do que seu pé. No entanto, esta pavimentou o Universo DC para o Reboot, que se mostrou um sucesso comercial, ao menos até o presente momento.