Quadrinhos

Resenha | Príncipe Valente – Vol. 1: Nos Tempos do Rei Arthur

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A importância de Hal Foster para a história e o refinamento dos quadrinhos, enquanto forma de arte, é tão imprescindível quanto a de Charles Chaplin para o cinema. Ambos artistas refém de um tempo ainda primário para as mídias que ajudaram a aprimorar, e das condições de trabalho ainda simplistas as quais dispunham para se eternizar, a partir de suas criações. Agindo como um farol nas brumas reputacionais que envolviam a produção de tiras de quadrinhos, vistas na época como ilustrações banais e sem muita importância artística e/ou estética, o escritor e desenhista Hal Foster, na vida real tão aventureiro quando seu personagem mais querido e celebrado da carreira, fez iniciar seu legado em fevereiro de 1937 com a primeira tira de Príncipe Valente, nos divertidos e inspiradores tempos do Rei Arthur.

Ao longo de 43 anos, Foster supervisionou sua tira tal um pai a acompanhar os primeiros passos de seu filho. Assim, o artista se tornou o idealizador de toda uma mitologia própria e irresistível, sempre entre o realismo dos idos dos cavaleiros da távola redonda, e o surreal que esses mesmos homens acreditavam existir em um mundo ainda inexplorado, e portanto, repleto de abismos, dragões e a magia que no século XXI, por bem ou por mal encontra-se perdida. Nesse equilíbrio temático irresistível, tanto pela narrativa graciosa quanto pelas clássicas ilustrações de igual prestígio, conta-se a história do Rei Aguar que, expulso de seu trono, se refugia com esposa, seu único filho e seus servos fiéis para os pântanos selvagens da Bretanha, uma península montanhosa no extremo noroeste da França – notável como Foster se mostra um mestre da narração visual desde os primeiros quadros de introdução a história, influenciando várias outras lendas das HQ’s que viriam, a seguir.

Mas este é apenas o início de Príncipe Valente – Vol. 1: Nos Tempos Do Rei Arthur. Uma publicação ambiciosa e que reúne o primeiro ano das tiras coloridas do Príncipe Valente, a fim de evidenciar todo o esplendor e a dinâmica ímpar do trabalho de Foster, em um compêndio gráfico em tamanho extra-grande e com um apreço estético simplesmente impressionante – cortesia da editora Ediouro/Pixel Media, contando ainda neste volume com uma educativa retrospectiva da vida e obra do autor, e uma entrevista de cinco páginas com o próprio artista, dono de uma imaginação delirante. Ao folhear suas gloriosas páginas ilustradas, somos transportados para um pântano sombrio que serve apenas como palco para a mutação de um menino curioso, em uma lenda. Com a morte de sua mãe, e a profecia que seu futuro será cheio de tragédias, Val (como passa a ser chamado o príncipe) deixa seu pai para trás e parte em busca de ser um legítimo cavaleiro em aventuras mundo afora, negando as facilidades que seu sangue real poderia trazer, e toda a dor que remete a ele.

Intenso, e confiante, Val passa a ser um desses personagens que adoramos acompanhar em suas brigas, derrotas e triunfos em um sem-número de situações traiçoeiras, já que o mesmo parece atrair para si toda a sorte de problemas, missões e perigos que existem. O menino então vira adulto, e com ele, aliados, donzelas e inimigos se juntam como coadjuvantes de uma história de palácios, e monstros; espadas mágicas e amaldiçoadas, e poderosas oráculos que, com o dom da palavra, ditam o caminho de todos que a elas se submetem. Príncipe Valente reúne o que de melhor os quadrinhos dos anos 30 produziam, num encanto elementar que merece ser assegurado e cultuado com o passar do tempo em publicações colecionáveis tão inestimáveis, quanto esta. Não tão famoso quanto Will Eisner, criador de Um Contrato com Deus, e Jerry Siegel e Joe Shuster, pais do Superman na década de 1940, Harold Rudolf Foster é um dos maiores quadrinistas de todos os tempos, e não apenas no mundo ocidental das obras. Sua herança vive, intacta, e agora, melhor do que nunca.

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Douglas Olive

Cinéfilo formado em publicidade e iniciante com "Os Aristogatas", que assistia 5 vezes por dia na infância, e que agora começa a querer fazer seus próprios filmes. Devo estar indo longe demais.
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