Resenha | Shazam! – Com Uma Palavra Mágica

A fase da DC chamada Os Novos 52 representou um movimento de extrema mudança no universo dos heróis clássicos, chamado por  uns de reboot e por outros de uma “pequena reformulação, acabou por gerar muita discussão e claro, alguns recuos  por parte da editora. Nesse cenário, algumas origens de personagens foram alteradas e recontadas, entre elas a do antigo Capitão Marvel e atual Shazam. Lançada depois em encadernado, Shazam! Com Uma Palavra Mágica foi originalmente publicada como backups da revista da Liga da Justiça, pela dupla Geoff Johns e Gary Frank, a mesma que já havia feito bons trabalhos em Superman, Batman Terra Um e coisas mais recentes como Dooms Day Clock.

A historia se diferencia das outras origens (analisadas por nós em Shazam: Desvendando as Origens do Capitão Marvel Original) na composição de quem é Billy Batson, o menino que é o alter ego do homem poderoso e que recebe as dádivas do Mago Shazam. Billy é um adolescente problema, fato que antes era pouco explorado e obviamente faz muto sentido, pois ele é um rapaz na puberdade, sem pais, desamparado e que convive em um orfanato em que só lhe causam enfado.

Até por serem estas historias backup, as primeiras aparições do personagem e da mitologia que cerca Shazam são bem curtas, reciclando conceitos de um jeito que Johns é especialista, começando de maneira despretensiosa a procura do Mago por um hospedeiro de seus poderes, tendo esse processo apressado após mostrar um dos vilões, o doutor Silvana procurando  itens mágicos, que leu ao se aprofundar na lenda do Adão Negro. A obsessão do sujeito o faz reprisar outras figuras vilanescas também, parecido demais com o Lex Luthor de Superman- Origens Secretas, e isso faz a revista cair um pouco de qualidade, pois parece um prato requentado.

Billy é um orfão disperso, que não consegue ser adotado por ser um pré adolescente, mas  ele consegue fingir não ser um rapaz genioso. Ao encontrar os Vasquez, sua futura nova família, ele diz gostar de ler e fazer podcasts, e se surpreende ao receber uma resposta afirmativa. Na verdade isso era um teatro, ele não queria ser adotado por achar o casal idiota, mas sua vontade de se distanciar do orfanato era maior. Ao ir para a sua nova casa, é estabelecida uma rivalidade com Freddy, que vem a ser a contra parte antiga do Capitão Marvel Jr., e fora o rapaz loiro, todas as outras crianças são bem receptivas a ele, desde Mary (que carrega o nome de sua antiga irmã gêmea) até Pedro, Billy e Darla.

Os elementos clássicos da mitologia de Marvel estão lá, como o tigre Tawny. A historia demora um pouco a engrenar, muito por conta desse clima de teaser, mas isso tem seu lado positivo, pois a problemática de Billy ser um párea é bem sentida, assim como os laços sentimentais que ele vai fazendo com Freddy e seus novos irmãos. A questão envolvendo os filhos do homem mais rico da Filadelfia o senhor Bryer também fazem sentido, afinal, é um drama pequeno para um adulto, mas grande o suficiente para um adolescente.

Quando Silvana finalmente retorna, ele acha a tumba do Adão Negro, e magicamente fala a língua dele, dominado por uma força maligna maior e isso apressa o senso de urgência do Mago, que ao ver seu antigo pupilo ressurgir, se apressa em fazer de Billy o detentor de seu poder. Isso é uma boa explicação para a escolha do rapaz, pois o tempo se esgotando faz primar por uma solução veloz mesmo.

O Mago Shazam é o ultimo dos vivos que foram do conselho de Magos antigos e embora não se aprofunde muito nessa questão, esse pano de fundo dá ao mentor um ar de importância. Billy recebe o poder do Relâmpago Vivo mesmo não sendo uma criança fofa e puramente boa, basicamente para ser o sujeito que derrotaria o Adão Negro, e a partir daí começa uma corrida contra o tempo para o rapaz se tornar um sujeito exímio no que faz. Esta não é uma historia extraordinária como O Poder de Shazam de Jerry Ordway ou Shazam e a Sociedade Monstruosa do Mal do Jeff Smith, mas é bem legal em boa parte da exploração do mito que a Fawcett publicava nas revistas antigas.

No entanto, em algo a  publicação acerta demais, que é na composição das crianças. Billy e Freddy se contentam com pouco, salvam pessoas, recebem vinte dólares e ficam felizes demais, e essa atmosfera juvenil é muito bem vinda dada as características do personagem. Até o fato delas desejarem cerveja, desistindo na hora  da compra por não saber qual comprar faz muito sentido. Já a obsessão do Adão Negro em aumentar seu poder roubando o do Mago é  explicada como um paralelo entre Caim e Abel, o mito bíblico em que o irmão primogênito canibaliza o caçula, e obviamente é repaginado a um novo estilo aqui, mais moderno e parecido com o ideal da DC Comics do século XXI.

Da parte dos outros antagonistas, mesmo com Silvana sendo um pouco descartável, a reunião dos Sete Pecados encarnados é bem legal, e conversa com  Superman/Shazam: O Primeiro Trovão, de Judd Winnick, e a solução final de Shazam com relação ao poder do relâmpago enganando seu inimigo é uma boa sacada, e mesmo que beire o artificial, a ideia em si é bem executada, em especial porque as crianças se doam de fato umas para as outras. Apesar de o final ser parecido demais com os de outras origens, Shazam: Com Uma Palavra Mágica é uma boa reimaginação do personagem, contando com um roteiro de Johns muito correto, divertido e juvenil.

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