Resenha | Sshhhh!

Sem palavras. É como Jason trabalha e é como sua obra deixa o leitor. Operando através do silêncio, o autor norueguês consegue tocar e emocionar através dos requadros de Sshhhh!, narrativa gráfica trazida ao Brasil pela Mino, em 2017.

Com um traço simples, mas não simplório, o quadrinista consegue extrair significações profundas para seus personagens e sua narrativa, navegando através das sutilezas provenientes dos gestos e das hesitações. Adepto de um estilo mais claro e preciso, influenciado pela linha clara franco-belga, Jason concebe suas ambientações de forma extremamente limpa e despojada, sem a necessidade de muito arrojo para situar sua história.

Jason monta suas páginas através de quadrados e retângulos esteticamente padronizados, mantendo uma aparente estabilidade para sua trama, cuja perturbação se estabelece a nível semântico, e não sintático.

A opção do autor por uma concepção antropomórfica dos personagens se justifica uma vez que o aspecto lúdico adquirido lhe possibilita conduzir a narrativa através de metáforas visuais poderosas, versando sobre a vida e suas inevitabilidades, exaltando a força dos momentos de silêncio na vida em si.

Os momentos de maior importância em nossas vidas acontecem no silêncio, nós passamos muito mais tempo sem falar nada do que falando qualquer coisa, e ao trabalhar com a ausência de diálogos Jason ressalta o peso daquilo que ocorre quando as palavras não estão sendo ditas.

Os animais de Jason logram êxito ao transmitir uma série de expressões da aparente inexpressividade, em uma demonstração clara da absurda competência do autor enquanto um legítimo narrador visual. Tristeza, solidão, amor e esperança são extraídas dos mesmos olhares, brancos e vazios, de cada personagem que o autor concebe.

Em Sshhhh! nos vemos diante de uma representação alegórica da vida, que através de absurdos e recursos próprios do cartum, se apresenta exatamente como ela é: uma sequência de acontecimentos imperfeitos temperados com pitadas de alegrias aqui e acolá. Ao longo de dez contos curtos, Jason pede silêncio – sshhhh! – e encaminha o leitor para essa jornada de absoluta contemplação.

O pássaro antropomorfo que protagoniza a história se vê às voltas com dilemas da vida que são comuns a qualquer um de nós, como o encontro do amor, a relação com a inexorável presença da morte, a decepção e o luto, o consolo da vinda dos filhos, de uma nova vida surgindo de si e ganhando asas para alçar os próprios voos, bem como a relação que cada um de nós trava com sua própria existência, com a passagem do tempo e da eterna busca por significação diante da árdua tarefa do viver.

É muito interessante a forma como o protagonista lida em determinado momento com a própria sensação de apagamento e inexistência diante da sociedade, em uma busca flagrante por atenção daqueles que o cercam. Jason coloca seu personagem envolto por uma série de experiências de vida das mais diversas, para então, em uma espécie de eterno retorno nietzschiano, voltar para o ninho, seu ponto de partida na trama.

A forma como o quadrinista concebe sua narrativa, tanto a níveis estruturais quanto diegéticos, é de um nível de complexidade poucas vezes visto no meio, o que potencializa os quadrinhos enquanto linguagem vasta e cujas possibilidades enquanto veículo narrativo muitas vezes são menosprezadas.

Ao abrir mão do texto, o autor norueguês manipula a atenção do leitor, deixando-o em alerta para as sutilezas que seu nanquim dispõe nos requadros, compondo uma história muda, com muito a dizer.

Com Sshhhh!, o que Jason economiza em palavras, gasta em significação.

A história em quadrinhos, publicada pela editora Mino, apresenta 128 páginas, em uma belíssima capa cartão, e é a primeira publicação do quadrinista norueguês a ser publicada no Brasil.

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