Resenha | Superman & Batman: Os Melhores do Mundo

Existe uma rivalidade saudável, quase pedagógica, no meio dos fãs da DC Comics que se dividem entre aqueles que gostam mais do Batman e os que preferem o Superman. Essa dualidade não é algo apenas de fãs: a própria editora se esforçou para que os antigos Superamigos se tornassem personagens bastante diferentes entre si, afastando-os da leveza característica do clássico desenho dos estúdios Hanna-Barbera e levando-os cada vez mais próximos de suas origens do fim dos anos 1930. Após a megassaga Crise nas Infinitas Terras, que reformulou todo o Universo DC, os dois heróis já haviam se encontrado algumas vezes em histórias que mostravam o quanto eram diferentes um do outro. John Byrne retrata brevemente essa dualidade em sua minissérie O Homem de Aço, enquanto Frank Miller a reforça e acentua ainda mais no clássico O Cavaleiro das Trevas. Mas talvez a melhor representação da relação entre o Homem do Amanhã e o Cruzado Encapuzado tenha saído das mãos de Dave Gibbons e Steve Rude em 1990, com a minissérie em três partes Superman & Batman: Os Melhores do Mundo.

Gibbons traz em seu roteiro o melhor que sua nostalgia poderia elaborar, reconstruindo sua diversão de infância em algo adulto, maduro e não menos divertido. Diferente de Miller, o texto de Gibbons não toma partido pra nenhum lado, e reforça nos dois heróis aquilo que eles têm de melhor, dentro de suas próprias características. Luz e sombra, dia e noite, cinismo e esperança não são conceitos antagonistas na trama. Pelo contrário, eles se completam. Batman é mostrado como um verdadeiro senhor da noite, agindo em silêncio nas sombras e despertando o medo no coração dos bandidos, mas ainda é um herói e passa longe das versões psicóticas que vieram depois. Superman é otimista e desperta a confiança nos cidadãos de Metrópolis agindo em plena luz do dia, e se preocupa tanto com grandes crimes quanto com pequenas coisas que fazem a vida das pessoas comuns um pouco melhor e mais esperançosa. Os dois heróis não entram em um confronto nessa história; eles unem suas forças, cada um dentro do que melhor sabe fazer, para enfrentar seus maiores vilões.

Coringa e Lex Luthor são retratados como eram nas revistas mensais de então: o primeiro um louco caótico para quem o mundo é uma enorme piada; o segundo como um poderoso homem de negócios inescrupuloso, motivado pela inveja por alguém mais poderoso que ele. Os dois antagonistas trocam suas bases de operações, o que faz com que Superman tenha que trabalhar em Gotham e Batman vá até Metropólis. A dinâmica dessa troca de cenários é interessante, mas os heróis percebem que somente se unindo conseguem evitar um terrível mal que ameaça o mundo recém-saído da Guerra Fria. Os personagens secundários dos dois universos estão muito bem apresentados, principalmente quando interagem nas festas do orfanato (que esconde um segredo sombrio), desenvolvendo excelentes diálogos.

A dupla de heróis é desenhada da forma mais icônica possível. Superman tem seus traços claramente inspirados no desenho dos Irmãos Fleischmann, da década de 1940, enquanto o Batman está muito ao que David Mazzuchelli retratou em Ano Um. A arte de Steve Rude é simplesmente fantástica. Transita entre o simples e o detalhado, a luz e as sombras, o estilizado e o complexo. As expressões faciais que o artista transmite são parte fundamental da compreensão da história e, se por vezes parecem um tanto caricatas, funcionam muito bem na maior parte da obra. Rude e Gibbons prestam homenagens durante a minissérie aos grandes nomes da comédia do início do século passado, e as referências a Abbot & Costello, Groucho Marx, Stan Laurel e Oliver Hard (O Gordo e o Magro) saltam aos olhos do leitor mais atento. Aliás, Rude recompensa aqueles que prestam atenção nos detalhes de seus cenários colocando algumas cenas picantes ou propositalmente “sexy por acidente” em seus quadros.

A edição da Panini, lançada em 2017 num encadernado de capa dura, faz justiça ao material original, e embora os extras sejam apresentados ao fim da edição de forma um tanto confusa, é uma ótima forma de eternizar um clássico que já está às portas de sua terceira década de publicação. Uma pena que os filmes da DC de Zack Snyder não beberam dessa fonte e acabaram por mostrar um Superman tão sombrio e deprimido quanto o Batman. Gibbons e Rude mostram que Batman e Superman não são iguais, mas também não são incompatíveis. São dois lados da mesma moeda. São os melhores do mundo!

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