Resenha | Superman – Paz na Terra

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Superman Paz na Terra tem o argumento de Alex Ross e Paul Dini, desenhado pelo primeiro e escrito pelo segundo.

Sinopse: Superman salva uma mendiga com fome em pleno Natal, levando-a para um abrigo, e, inspirado por uma frase de Charles Dickens e pelas conversas com o pai, ele decide tentar empregar seus poderes para acabar com a fome no mundo.

O roteiro de Paul Dini opta pela narração em primeira pessoa o tempo todo, deixando um clima totalmente pessoal e conseguindo, assim, abrir a introspecção do personagem ao permitir que suas lembranças sejam compartilhadas com os leitores.

A história começa lembrando (de novo) as origens do herói, fazendo essa ligação com a premissa da história ao se ater aos ensinamentos do seu pai com o semeio da terra durante a sua infância. Essa opção tenta resgatar a essência do personagem para justificar a narrativa que se dará a seguir, porém, de forma desnecessária: as motivações do Superman não precisam sempre ser ligadas à sua origem. Se não houvesse essa ligação, a história talvez fosse um pouco mais rica. O herói já é crescido, ficar sempre voltando ao passado para justificar as suas ações não dá maturidade ao personagem, pelo contrário.

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O ponto alto do roteiro se dá logo no começo, quando ele mesmo reconhece a ironia de um ser que não sente fome querer ajudar a acabar com a fome no mundo. Como um alienígena inserido na Terra, a humanidade e os humanos são estranhos para ele até hoje. Nesse momento já pode-se perceber que sua missão vai falhar, não por causa dos seus atos para se resolver um problema literalmente do tamanho do mundo, muito menos por causa da politicagem humana no congresso americano e nos países em que o Super encontra problemas ao visitar, mas sim por falta de compreensão: Superman não sente fome, logo, não consegue entender justamente o objeto do seu tema em sua completude; portanto, não pode ajudar a humanidade.

Pena que isso foi abordado superficialmente; talvez, se fosse mais elaborado, enriquecesse a história de uma forma espantosa. Ao invés disso, o roteiro prefere se focar nas atitudes nobres tentando, em vão, solucionar o problema. É interessante também mostrar a percepção do personagem de que o problema que ele abraçou é muito maior do que ele conseguiria realizar, porém, ela acaba perdendo força ao virar a pieguiçe no final com uma desnecessária moral da história à la He-Man. Nessa HQ não tem espaço para isso, pois Superman falhou em tudo com a humanidade: tanto no seu propósito quanto através dos meios que utilizou, justamente por não conseguir compreendê-la. Seria mais digno e muito mais interessante por parte do roteiro admitir a derrota do personagem e tentar levantar outras perguntas do que empurrar novamente para a humanidade de forma patética a solução do problema que tomou para si. Em suma: como um ser poderoso e indestrutível que deu falsas esperança para uns se acha no direito de inspirar outros no final, ainda mais de forma paternalista? Não faz sentido agora tapar o sol com a peneira, por mais que tente apelar para as origens messiânicas no início da história.

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A arte realista em forma de pintura de Alex Ross é impressionante, desde o uso das luzes e sombras até o acabamento. Tanto a parte descritiva do presente quanto as lembranças do passado, onde a descrição fica um pouco vaga, mostram a versatilidade do artista.

Superman Paz na Terra vale a pena? Sim, primeiramente pela arte, e também por levantar algumas reflexões interessantes para o personagem. Porém, se você quer ler uma grande história do Super, que esteja no seleto grupo das melhores, sugiro partir para outra HQ.

Texto de autoria de Pablo Grilo.