Resenha | Tex Gigante 27 – A Cavalgada do Morto

O sobrenatural sempre esteve presente no Velho Oeste americano. Regiões inóspitas e pouco povoadas, gente simplória e supersticiosa, mitos indígenas e o folclore europeu trazido pelos imigrantes; toda essa mistura resultou em várias lendas macabras, contadas ao redor da fogueira. Uma das mais famosas é a do cavaleiro sem cabeça, baseada num fato real ocorrido na metade do século XIX, e que inspirou inclusive o filme de Tim Burton. Agora é vez do maior cowboy dos quadrinhos enfrentar essa assombração no recente lançamento da Mythos Editora, Tex Gigante número 27, intitulado A Cavalgada do Morto.

O perigoso bandoleiro Artur Videla assolou a região da fronteira com o México até ser capturado por quatro Texas Rangers que resolveram fazer dele um exemplo. Após decapitar o bandido, prenderam seu cadáver (com a cabeça no colo) num cavalo e puseram o bicho pra galopar pelo deserto. Muitos anos depois, com a lenda já criada, El Hombre Muerto ressurge e começa a matar. É então que Tex e seus parceiros são chamados para resolver o mistério, e sua mensagem é clara: fantasma ou não, chumbo quente é a solução.

A série Tex Gigante traz sempre histórias completas e geralmente ilustradas por um artista convidado. Raras vezes, porém, um desenhista que já faz parte da equipe do personagem ganha essa honra. O escolhido da vez está entre os últimos: Fabio Civitelli desenha histórias de Tex desde 1984, e não é exagero nenhum dizer que ele se tornou o preferido dos leitores com seu traço limpo e elegante. Aqui ele aproveitou para dar maior atenção aos pequenos detalhes do desenho e até tentar algumas experimentações. Embarcando no clima de terror da história, ele abusou de contrastes entre luz e sombra (ou, muitas vezes, praticamente entre sombra e sombra) e inovou com alguns dégradés e efeitos esfumaçados, em especial nos cenários e paisagens – sem, contudo, deixar de lado a clareza de composição e a precisão anatômica que o consagraram. Apesar de alguns deslizes, como armas inexplicavelmente enevoadas quando o rosto do personagem está nítido, foi um trabalho impressionante. Só um adendo, Civitelli esteve em outubro no Brasil, na FestComix de São Paulo e na GibiCon de Curitiba, e se mostrou extremamente simpático e atencioso com todos os fãs. Um artista em todos os sentidos.

O roteiro da edição ficou a cargo de Mauro Boselli, veterano escritor de Tex e outros personagens da editora Bonelli. Também ele está entre os mais apreciados pelos leitores, sempre se destacando por criar tramas nas quais aventura é a palavra- chave, sempre bem movimentadas e empolgantes. Outra característica marcante sua é apresentar coadjuvantes muito bem trabalhados. Como ele próprio declarou certa vez, todo mundo sabe que Tex e seus parceiros não vão morrer, então se a história tiver coadjuvantes interessantes, fica um tempero a mais. Em A Cavalgada do Morto ele usa de todos esses expedientes e mais alguns, como a divisão tradicional de Tex e Carson investigarem uma pista enquanto Kit Willer e Jack Tigre seguem outra. Também vale mencionar a presença de El Morisco, o “bruxo” mouro amigo do herói, recorrente em diversas histórias onde o ranger enfrenta algo sobrenatural. O roteiro funciona muito bem como um “filme” de western-terror, o único ponto fraco é a previsibilidade da trama, ao menos para leitores experientes em Tex.

Nas bancas custando R$ 19,90, A Cavalgada do Morto tem 242 páginas e é recomendação máxima até pra quem não conhece o personagem, pois este é um excelente ponto de partida.

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Texto de autoria de Jackson Good.